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Quanto cobrar?

Como calcular o valor hora a cobrar pelo seu trabalho como desenvolvedor freelancer — do levantamento de horas ao valor mensal ideal. Atualizado com dados de mercado de São Paulo em agosto de 2026.

21 de April de 2020 · ~13 min de leitura · #freelancer #carreira #salario ·

Uma das maiores dificuldades de um desenvolvedor em início de carreira é saber qual valor cobrar pelo seu produto, seu sistema ou site — e se esse valor será justo tanto para ele quanto para seus clientes. Neste artigo vou comentar sobre isso e falar como chegar ao valor hora a ser cobrado.

Atualização — agosto de 2026
Este post foi publicado originalmente em abril de 2020. Todos os números de mercado foram recalculados em agosto de 2026 com dados do Guia Salarial Robert Half 2026 para São Paulo, faixas praticadas por recrutadores de TI em fevereiro de 2026 e a legislação tributária vigente (Simples Nacional, Fator R, teto do INSS). A metodologia original continua valendo — o que mudou foram os números, e eles mudaram bastante.
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Afinal, quanto devo cobrar?

Uma dúvida que frequentemente aparece nos grupos de desenvolvedores — tanto iniciantes quanto experientes — é como precificar um projeto. Perguntas do tipo:

  • Quanto cobrar por um e-commerce?
  • Quanto cobrar por um site simples de N páginas?
  • Quanto cobrar para fazer X ou Y?

A resposta é direta:

Regra de ouro
Cobre o valor da sua hora multiplicado pelo tempo gasto no projeto.

Simples na teoria. O que quase todo mundo erra são os dois números da conta: o que conta como “tempo gasto” e quanto vale a sua hora. É sobre isso que trata o resto do artigo.

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O que considerar como tempo gasto no projeto?

Tempo gasto no projeto é todo o tempo que você dedicou a ele — não apenas o tempo de código. Isso inclui:

  • Levantamento de requisitos
  • Reuniões, calls, e-mails e conversas com o cliente
  • Criação da proposta e contrato
  • Documentação do projeto

Obviamente, você pode abrir mão ou omitir algumas cobranças para deixar o preço mais atrativo. Muitos desenvolvedores não cobram por reuniões ou pela elaboração da proposta. Cabe a você decidir quais concessões fazer — mas prefira adotar um padrão consistente para todos os clientes e, quando for conveniente, aplique um desconto explícito na proposta. Cobrar valores muito diferentes entre clientes semelhantes é um problema que volta a te assombrar.

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Devo cobrar diferente pelo porte do cliente?

A resposta direta é não — você cobra pelo seu serviço, não pelo cliente.

Mas como é você quem decide, vale a reflexão: se um cliente de grande porte chegou até você, provavelmente foi por indicação e já conhece seu valor — ou está buscando mão de obra mais acessível do que uma agência ou fábrica de software. Cobrar a mais justamente por ele ser grande pode resultar em perda do projeto.

Pense no que vale mais: tentar extrair um pouco mais numa negociação e arriscar perder o cliente, ou fechar o projeto, exibir esse nome no seu portfólio, garantir mais projetos e ainda ampliar seu networking?

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Como contabilizar e quantificar as horas?

Para registrar horas você pode usar desde uma planilha (Excel / Google Sheets) até ferramentas específicas. Abaixo as que uso e recomendo — todas com plano gratuito:

Contabiliza o tempo nos editores e IDEs automaticamente, gerando gráficos por linguagem, projeto e editor. Não depende de você lembrar de apertar play.
Plano gratuito com histórico limitado
Timer manual por tarefa e cliente, com relatórios exportáveis e valor-hora configurável por projeto. Bom para registrar o que o Wakatime não vê — reuniões, proposta, suporte.
Plano gratuito sem limite de usuários
Alternativa ao Clockify, com integrações nativas em ferramentas de gestão e um relatório de horas faturáveis versus não faturáveis bem resolvido.
Plano gratuito para uso individual
Gestão visual de projetos estilo Kanban. Não mede tempo sozinho, mas organiza o escopo — e escopo bem definido é o que evita hora não cobrada.
Plano gratuito
O hábito importa mais que a ferramenta
Qualquer uma delas funciona. O que não funciona é estimar de cabeça no fim do mês. Meça por três meses antes de fixar o seu número — você provavelmente vai descobrir que trabalha mais horas e fatura menos do que imagina.
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E quanto cobrar pela minha hora?

O preço da sua hora é basicamente o valor que você deseja ganhar por mês dividido pelas horas que está disposto a trabalhar nesse mês.

No Brasil, a jornada legal em regime CLT é de 44 horas semanais, o que dá 220 horas mensais para efeito de cálculo de salário-hora. Já um contrato PJ de dedicação integral costuma ser fechado em torno de 168 horas mensais (21 dias úteis × 8 horas).

Meta mensalR$ 18.500
÷
Horas faturáveis130 h
=
Valor horaR$ 142,31 ≈ R$ 145

Fórmula base: meta mensal ÷ horas faturáveis = valor hora

Repare que o divisor não é 168 nem 220. E é justamente aí que mora o erro mais caro da precificação freelancer.

O erro das horas faturáveis

Horas disponíveis não são horas faturáveis. Num mês PJ de 168 horas, boa parte do tempo vai para atividades que nenhum cliente paga diretamente: prospecção, elaboração de proposta, reuniões de alinhamento não cobradas, emissão de nota, contabilidade e estudo.

Gráfico mostrando a divisão de um mês PJ de 168 horas: 130 horas faturáveis, 12 de prospecção e propostas, 10 de reuniões não faturadas, 8 de administrativo e 8 de estudo

Se você calcula o seu valor-hora dividindo a meta por 168, mas só consegue faturar 130 horas, você recebe 77% do que planejou. É um desconto de 23% que ninguém pediu e que você concedeu sozinho.

Regra prática
Freelancer por projeto: divida por 120 a 140 horas. PJ alocado em contrato contínuo (aquele em que você fatura o mês cheio): pode dividir por 168, porque a prospecção some e o administrativo diminui.

Você pode ajustar esse valor para cima ou para baixo conforme o contexto, mas evite oscilações extremas — cobrar R$ 40/hora num projeto e R$ 300/hora em outro gera desconfiança e dificulta negociações futuras.

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Qual valor mensal estipular?

Se você ainda não sabe qual meta mensal definir, leve em consideração três fatores:

  • Sua experiência e stack — as tecnologias que domina determinam sua faixa de mercado
  • Referência de mercado — pesquise salários CLT de profissionais com o seu perfil e converta para o equivalente PJ (a seção 07 explica por que esse fator não é o que dizem por aí)
  • Seu custo de vida — alimentação, saúde, contas fixas, dependentes; esse é o seu piso mínimo

O ponto de partida mais honesto é o que o mercado paga para o seu nível, em regime CLT, na sua praça. Abaixo, os números de São Paulo em 2026:

Faixas salariais CLT mensais para desenvolvedores em São Paulo em 2026, do júnior ao especialista, com percentis 25, 50 e 75

Cargo (São Paulo) 25º pct. Mediana 75º pct.
Desenvolvedor Back-End JúniorR$ 5.750R$ 6.500R$ 8.300
Desenvolvedor Back-End PlenoR$ 9.200R$ 12.000R$ 15.450
Desenvolvedor Back-End SêniorR$ 12.250R$ 16.000R$ 20.600
Desenvolvedor Front-End PlenoR$ 9.250R$ 12.100R$ 15.550
Desenvolvedor Front-End SêniorR$ 12.650R$ 15.000R$ 19.300
Desenvolvedor Mobile SêniorR$ 13.000R$ 17.000R$ 21.900
Analista de Testes PlenoR$ 7.650R$ 10.000R$ 12.850
Analista de Testes SêniorR$ 10.350R$ 13.500R$ 17.400
Product OwnerR$ 7.700R$ 11.000R$ 14.150
Scrum Master / Agile CoachR$ 11.000R$ 14.000R$ 18.000

Valores mensais em regime CLT, São Paulo. Fonte: Guia Salarial Robert Half 2026.

Acima do nível sênior, as faixas se abrem por stack. Dados de processos seletivos conduzidos em fevereiro de 2026 colocam um Tech Lead entre R$ 18.000 e R$ 28.000 CLT, DevOps/SRE sênior entre R$ 15.000 e R$ 22.000, e um dev Java sênior entre R$ 14.000 e R$ 20.000 — com React e front-end na base da tabela, entre R$ 11.000 e R$ 17.000.

Atenção ao seu contexto
Esses valores são de São Paulo, a praça mais cara do país. Contratos híbridos em SP ainda pagam um prêmio de localização de 15% a 20% sobre vagas 100% remotas. Cidades menores tendem a faixas inferiores, embora o trabalho remoto tenha reduzido bastante essa distância desde 2020. Para referências cruzadas, consulte Glassdoor, ProgramaThor e LinkedIn.
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CLT × PJ: o fator que quase todo mundo erra

A versão original deste post recomendava multiplicar o salário CLT por 1,7 a 1,8 para chegar ao equivalente PJ. Esse número precisa de duas correções importantes — a conta completa, com todos os encargos e o Fator R, está em CLT, PJ ou MEI: qual devo escolher; aqui vai o resumo aplicado à precificação.

Primeira: o que você precisa para empatar. Um salário CLT não é só o valor bruto na carteira. Ele carrega 13º, férias com adicional de um terço, FGTS e benefícios. Do lado PJ, você ainda paga DAS, INSS sobre pró-labore e contador. Somando tudo, para um pleno em São Paulo, a conta fica assim:

Comparação entre salário CLT de R$ 12.000 e o faturamento PJ de R$ 18.539 necessário para manter o mesmo padrão, decomposto em salário equivalente, encargos, benefícios, DAS e INSS

O fator real de reposição fica em torno de 1,5× — e cai conforme o salário sobe, porque benefícios como vale-refeição e plano de saúde são valores fixos que pesam proporcionalmente menos em salários maiores.

Segunda: o que o mercado efetivamente paga. Comparando as faixas CLT e PJ praticadas em 2026 para as mesmas vagas sêniores, a razão média é de 1,32×, variando entre 1,23× e 1,40×. Ou seja: o mercado paga menos do que o necessário para empatar de verdade.

A conta que não fecha
Aceitar uma proposta PJ a 1,3× do CLT equivalente significa financiar do próprio bolso a diferença até 1,5×. Isso pode fazer sentido — mais autonomia, mais clientes, teto de crescimento maior —, mas precisa ser uma escolha consciente, não uma descoberta em dezembro quando o 13º não chega.

O básico da tributação PJ em 2026

Desenvolvimento de software é atividade de natureza intelectual e não pode ser MEI. Na prática, você abre uma SLU ou LTDA no Simples Nacional. O que define quanto imposto você paga é o Fator R:

Situação Anexo Alíquota inicial
Folha (pró-labore + encargos) ≥ 28% da receitaAnexo III 6%
Folha abaixo de 28% da receitaAnexo V 15,5%

A alíquota inicial vale para faturamento acumulado de até R$ 180 mil nos últimos 12 meses e sobe por faixas a partir daí. Sobre o pró-labore incide 11% de INSS, limitado ao teto de contribuição de R$ 8.475,55 — ou seja, no máximo R$ 932,31 por mês, independentemente do quanto você retire acima disso.

Vale conversar com um contador
A diferença entre os Anexos III e V passa de 9 pontos percentuais. Num faturamento de R$ 180 mil por ano, isso representa mais de R$ 17 mil de imposto a mais ou a menos. É o tipo de decisão que se paga sozinha na primeira consulta.
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A tabela de valor-hora de 2026

Juntando tudo — mediana de mercado em São Paulo, reposição de encargos e horas faturáveis reais — chega-se a esta referência:

Gráfico de barras comparando o valor-hora por nível em dois cenários: PJ alocado full-time com 168 horas faturadas e freelancer por projeto com 130 horas faturáveis

Nível CLT mediana (SP) PJ alocado (168 h) Freelance (130 h)
JúniorR$ 6.500R$ 68 / horaR$ 80 – 105 / hora
PlenoR$ 12.000R$ 110 / horaR$ 115 – 175 / hora
SêniorR$ 16.000R$ 141 / horaR$ 145 – 230 / hora
Especialista / Tech LeadR$ 23.000R$ 196 / horaR$ 200 – 300 / hora

Cálculo próprio a partir das medianas e percentis do Guia Salarial Robert Half 2026 para São Paulo, com reposição de 13º, férias + 1/3, FGTS, benefícios, DAS do Anexo III e INSS sobre pró-labore.

Entre julho de 2019 e janeiro de 2021 eu trabalhei no Banco BS2 como PJ, contratado através da K2 Partnering. Comecei na squad de API Banking, na tribo de B2B, em São Paulo, e em março de 2020 passei para o time de projetos especiais — o time que implementou o SPI/PIX, com todo mundo em remoto por causa da quarentena.

É exatamente a coluna do meio da tabela acima: alocação contínua, mês cheio faturado, sem prospecção e sem proposta nova a cada projeto. E a referência que valia para o meu contrato era a mesma deste post — eu recebia o equivalente a um sênior de São Paulo. Não era um número tirado do meu custo de vida; era a faixa de mercado CLT convertida para PJ.

Vale o registro de que havia uma consultoria no meio do caminho. Quando você entra via parceiro, o valor-hora que chega até você já passou pela margem de outra empresa — e essa margem é invisível na negociação. Saber a faixa de mercado do seu nível é o que te diz se a proposta que chegou é boa ou se é só o que sobrou.

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O que mudou desde a primeira versão deste post

A versão anterior trazia uma tabela levantada em janeiro de 2023, com júnior entre R$ 1.500 e R$ 5.000 e pleno entre R$ 6.000 e R$ 10.000. Só de inflação, o IPCA acumulou 18,28% entre janeiro de 2023 e julho de 2026. Aqueles R$ 5.000 de teto júnior equivaleriam hoje a cerca de R$ 5.900 apenas para manter o poder de compra.

Mas o mercado andou mais do que a inflação na base da pirâmide e menos no topo:

Nível Tabela de 2023 Corrigido pelo IPCA Mercado SP 2026
JúniorR$ 1.500 – 5.000R$ 1.774 – 5.914R$ 5.750 – 8.300
PlenoR$ 6.000 – 10.000R$ 7.097 – 11.828R$ 9.200 – 15.450
SêniorR$ 9.000 – 20.000R$ 10.645 – 23.656R$ 12.250 – 20.600
EspecialistaR$ 12.000 – 25.000R$ 14.193 – 29.570R$ 18.000 – 28.000

Duas leituras saltam da tabela. A primeira: o piso subiu muito. Aquele júnior de R$ 1.500 simplesmente não existe mais em São Paulo — o piso praticado hoje está quase quatro vezes acima disso. A segunda: o topo comprimiu. O teto sênior de R$ 20.000 de 2023 valeria R$ 23.656 hoje, mas o mercado paga R$ 20.600. Em termos reais, o sênior de São Paulo perdeu poder de compra no período.

O número que importa é o seu

Definir quanto cobrar não é sobre seguir uma tabela — é sobre entender quanto seu tempo vale, quanto você precisa para viver bem e quanto o mercado pratica para o seu nível. Com esses três números em mãos, você tem tudo para negociar com segurança e consistência.

Se você levar apenas uma coisa deste texto, que seja esta: meça as suas horas faturáveis antes de dividir. Todo o resto — encargos, impostos, benefícios — é aritmética que um contador resolve. O divisor errado é o erro que ninguém corrige por você, porque ninguém além de você sabe que ele existe.

E lembre-se: o valor hora é uma meta, não um teto. À medida que você entrega projetos, constrói portfólio e expande sua rede, seu preço deve subir junto.

Referências

  1. Robert Half. Guia Salarial 2026 — Desenvolvedor(a) Back-End Júnior, Pleno e Sênior em São Paulo. roberthalf.com
  2. Robert Half. Guia Salarial 2026 — Desenvolvedor(a) Back-End Sênior em São Paulo. roberthalf.com
  3. HUNT IT. Salário de Desenvolvedor Sênior no Brasil em 2026: guia completo por stack e cidade. Fevereiro de 2026. huntit.com.br
  4. Contabilizei. INSS pró-labore 2026: tabelas, teto e como calcular. contabilizei.com.br
  5. Agilize Contabilidade. Tributação de desenvolvedor com CNPJ: pague 6% com Fator R. agilize.com.br
  6. Contmatic Simplifique. Tabela Simples Nacional 2026: alíquotas e faixas do DAS. simplifique.contmatic.com.br
  7. IBGE. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — série histórica. ibge.gov.br

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