Quanto cobrar?
Como calcular o valor hora a cobrar pelo seu trabalho como desenvolvedor freelancer — do levantamento de horas ao valor mensal ideal. Atualizado com dados de mercado de São Paulo em agosto de 2026.
Uma das maiores dificuldades de um desenvolvedor em início de carreira é saber qual valor cobrar pelo seu produto, seu sistema ou site — e se esse valor será justo tanto para ele quanto para seus clientes. Neste artigo vou comentar sobre isso e falar como chegar ao valor hora a ser cobrado.
Afinal, quanto devo cobrar?
Uma dúvida que frequentemente aparece nos grupos de desenvolvedores — tanto iniciantes quanto experientes — é como precificar um projeto. Perguntas do tipo:
- Quanto cobrar por um e-commerce?
- Quanto cobrar por um site simples de N páginas?
- Quanto cobrar para fazer X ou Y?
A resposta é direta:
Simples na teoria. O que quase todo mundo erra são os dois números da conta: o que conta como “tempo gasto” e quanto vale a sua hora. É sobre isso que trata o resto do artigo.
O que considerar como tempo gasto no projeto?
Tempo gasto no projeto é todo o tempo que você dedicou a ele — não apenas o tempo de código. Isso inclui:
- Levantamento de requisitos
- Reuniões, calls, e-mails e conversas com o cliente
- Criação da proposta e contrato
- Documentação do projeto
Obviamente, você pode abrir mão ou omitir algumas cobranças para deixar o preço mais atrativo. Muitos desenvolvedores não cobram por reuniões ou pela elaboração da proposta. Cabe a você decidir quais concessões fazer — mas prefira adotar um padrão consistente para todos os clientes e, quando for conveniente, aplique um desconto explícito na proposta. Cobrar valores muito diferentes entre clientes semelhantes é um problema que volta a te assombrar.
Devo cobrar diferente pelo porte do cliente?
A resposta direta é não — você cobra pelo seu serviço, não pelo cliente.
Mas como é você quem decide, vale a reflexão: se um cliente de grande porte chegou até você, provavelmente foi por indicação e já conhece seu valor — ou está buscando mão de obra mais acessível do que uma agência ou fábrica de software. Cobrar a mais justamente por ele ser grande pode resultar em perda do projeto.
Pense no que vale mais: tentar extrair um pouco mais numa negociação e arriscar perder o cliente, ou fechar o projeto, exibir esse nome no seu portfólio, garantir mais projetos e ainda ampliar seu networking?
Como contabilizar e quantificar as horas?
Para registrar horas você pode usar desde uma planilha (Excel / Google Sheets) até ferramentas específicas. Abaixo as que uso e recomendo — todas com plano gratuito:
E quanto cobrar pela minha hora?
O preço da sua hora é basicamente o valor que você deseja ganhar por mês dividido pelas horas que está disposto a trabalhar nesse mês.
No Brasil, a jornada legal em regime CLT é de 44 horas semanais, o que dá 220 horas mensais para efeito de cálculo de salário-hora. Já um contrato PJ de dedicação integral costuma ser fechado em torno de 168 horas mensais (21 dias úteis × 8 horas).
Fórmula base: meta mensal ÷ horas faturáveis = valor hora
Repare que o divisor não é 168 nem 220. E é justamente aí que mora o erro mais caro da precificação freelancer.
O erro das horas faturáveis
Horas disponíveis não são horas faturáveis. Num mês PJ de 168 horas, boa parte do tempo vai para atividades que nenhum cliente paga diretamente: prospecção, elaboração de proposta, reuniões de alinhamento não cobradas, emissão de nota, contabilidade e estudo.
Se você calcula o seu valor-hora dividindo a meta por 168, mas só consegue faturar 130 horas, você recebe 77% do que planejou. É um desconto de 23% que ninguém pediu e que você concedeu sozinho.
Você pode ajustar esse valor para cima ou para baixo conforme o contexto, mas evite oscilações extremas — cobrar R$ 40/hora num projeto e R$ 300/hora em outro gera desconfiança e dificulta negociações futuras.
Qual valor mensal estipular?
Se você ainda não sabe qual meta mensal definir, leve em consideração três fatores:
- Sua experiência e stack — as tecnologias que domina determinam sua faixa de mercado
- Referência de mercado — pesquise salários CLT de profissionais com o seu perfil e converta para o equivalente PJ (a seção 07 explica por que esse fator não é o que dizem por aí)
- Seu custo de vida — alimentação, saúde, contas fixas, dependentes; esse é o seu piso mínimo
O ponto de partida mais honesto é o que o mercado paga para o seu nível, em regime CLT, na sua praça. Abaixo, os números de São Paulo em 2026:
| Cargo (São Paulo) | 25º pct. | Mediana | 75º pct. |
|---|---|---|---|
| Desenvolvedor Back-End Júnior | R$ 5.750 | R$ 6.500 | R$ 8.300 |
| Desenvolvedor Back-End Pleno | R$ 9.200 | R$ 12.000 | R$ 15.450 |
| Desenvolvedor Back-End Sênior | R$ 12.250 | R$ 16.000 | R$ 20.600 |
| Desenvolvedor Front-End Pleno | R$ 9.250 | R$ 12.100 | R$ 15.550 |
| Desenvolvedor Front-End Sênior | R$ 12.650 | R$ 15.000 | R$ 19.300 |
| Desenvolvedor Mobile Sênior | R$ 13.000 | R$ 17.000 | R$ 21.900 |
| Analista de Testes Pleno | R$ 7.650 | R$ 10.000 | R$ 12.850 |
| Analista de Testes Sênior | R$ 10.350 | R$ 13.500 | R$ 17.400 |
| Product Owner | R$ 7.700 | R$ 11.000 | R$ 14.150 |
| Scrum Master / Agile Coach | R$ 11.000 | R$ 14.000 | R$ 18.000 |
Valores mensais em regime CLT, São Paulo. Fonte: Guia Salarial Robert Half 2026.
Acima do nível sênior, as faixas se abrem por stack. Dados de processos seletivos conduzidos em fevereiro de 2026 colocam um Tech Lead entre R$ 18.000 e R$ 28.000 CLT, DevOps/SRE sênior entre R$ 15.000 e R$ 22.000, e um dev Java sênior entre R$ 14.000 e R$ 20.000 — com React e front-end na base da tabela, entre R$ 11.000 e R$ 17.000.
CLT × PJ: o fator que quase todo mundo erra
A versão original deste post recomendava multiplicar o salário CLT por 1,7 a 1,8 para chegar ao equivalente PJ. Esse número precisa de duas correções importantes — a conta completa, com todos os encargos e o Fator R, está em CLT, PJ ou MEI: qual devo escolher; aqui vai o resumo aplicado à precificação.
Primeira: o que você precisa para empatar. Um salário CLT não é só o valor bruto na carteira. Ele carrega 13º, férias com adicional de um terço, FGTS e benefícios. Do lado PJ, você ainda paga DAS, INSS sobre pró-labore e contador. Somando tudo, para um pleno em São Paulo, a conta fica assim:
O fator real de reposição fica em torno de 1,5× — e cai conforme o salário sobe, porque benefícios como vale-refeição e plano de saúde são valores fixos que pesam proporcionalmente menos em salários maiores.
Segunda: o que o mercado efetivamente paga. Comparando as faixas CLT e PJ praticadas em 2026 para as mesmas vagas sêniores, a razão média é de 1,32×, variando entre 1,23× e 1,40×. Ou seja: o mercado paga menos do que o necessário para empatar de verdade.
O básico da tributação PJ em 2026
Desenvolvimento de software é atividade de natureza intelectual e não pode ser MEI. Na prática, você abre uma SLU ou LTDA no Simples Nacional. O que define quanto imposto você paga é o Fator R:
| Situação | Anexo | Alíquota inicial |
|---|---|---|
| Folha (pró-labore + encargos) ≥ 28% da receita | Anexo III | ✓ 6% |
| Folha abaixo de 28% da receita | Anexo V | ✗ 15,5% |
A alíquota inicial vale para faturamento acumulado de até R$ 180 mil nos últimos 12 meses e sobe por faixas a partir daí. Sobre o pró-labore incide 11% de INSS, limitado ao teto de contribuição de R$ 8.475,55 — ou seja, no máximo R$ 932,31 por mês, independentemente do quanto você retire acima disso.
A tabela de valor-hora de 2026
Juntando tudo — mediana de mercado em São Paulo, reposição de encargos e horas faturáveis reais — chega-se a esta referência:
| Nível | CLT mediana (SP) | PJ alocado (168 h) | Freelance (130 h) |
|---|---|---|---|
| Júnior | R$ 6.500 | R$ 68 / hora | R$ 80 – 105 / hora |
| Pleno | R$ 12.000 | R$ 110 / hora | R$ 115 – 175 / hora |
| Sênior | R$ 16.000 | R$ 141 / hora | R$ 145 – 230 / hora |
| Especialista / Tech Lead | R$ 23.000 | R$ 196 / hora | R$ 200 – 300 / hora |
Cálculo próprio a partir das medianas e percentis do Guia Salarial Robert Half 2026 para São Paulo, com reposição de 13º, férias + 1/3, FGTS, benefícios, DAS do Anexo III e INSS sobre pró-labore.
Entre julho de 2019 e janeiro de 2021 eu trabalhei no Banco BS2 como PJ, contratado através da K2 Partnering. Comecei na squad de API Banking, na tribo de B2B, em São Paulo, e em março de 2020 passei para o time de projetos especiais — o time que implementou o SPI/PIX, com todo mundo em remoto por causa da quarentena.
É exatamente a coluna do meio da tabela acima: alocação contínua, mês cheio faturado, sem prospecção e sem proposta nova a cada projeto. E a referência que valia para o meu contrato era a mesma deste post — eu recebia o equivalente a um sênior de São Paulo. Não era um número tirado do meu custo de vida; era a faixa de mercado CLT convertida para PJ.
Vale o registro de que havia uma consultoria no meio do caminho. Quando você entra via parceiro, o valor-hora que chega até você já passou pela margem de outra empresa — e essa margem é invisível na negociação. Saber a faixa de mercado do seu nível é o que te diz se a proposta que chegou é boa ou se é só o que sobrou.
O que mudou desde a primeira versão deste post
A versão anterior trazia uma tabela levantada em janeiro de 2023, com júnior entre R$ 1.500 e R$ 5.000 e pleno entre R$ 6.000 e R$ 10.000. Só de inflação, o IPCA acumulou 18,28% entre janeiro de 2023 e julho de 2026. Aqueles R$ 5.000 de teto júnior equivaleriam hoje a cerca de R$ 5.900 apenas para manter o poder de compra.
Mas o mercado andou mais do que a inflação na base da pirâmide e menos no topo:
| Nível | Tabela de 2023 | Corrigido pelo IPCA | Mercado SP 2026 |
|---|---|---|---|
| Júnior | R$ 1.500 – 5.000 | R$ 1.774 – 5.914 | R$ 5.750 – 8.300 |
| Pleno | R$ 6.000 – 10.000 | R$ 7.097 – 11.828 | R$ 9.200 – 15.450 |
| Sênior | R$ 9.000 – 20.000 | R$ 10.645 – 23.656 | R$ 12.250 – 20.600 |
| Especialista | R$ 12.000 – 25.000 | R$ 14.193 – 29.570 | R$ 18.000 – 28.000 |
Duas leituras saltam da tabela. A primeira: o piso subiu muito. Aquele júnior de R$ 1.500 simplesmente não existe mais em São Paulo — o piso praticado hoje está quase quatro vezes acima disso. A segunda: o topo comprimiu. O teto sênior de R$ 20.000 de 2023 valeria R$ 23.656 hoje, mas o mercado paga R$ 20.600. Em termos reais, o sênior de São Paulo perdeu poder de compra no período.
O número que importa é o seu
Definir quanto cobrar não é sobre seguir uma tabela — é sobre entender quanto seu tempo vale, quanto você precisa para viver bem e quanto o mercado pratica para o seu nível. Com esses três números em mãos, você tem tudo para negociar com segurança e consistência.
Se você levar apenas uma coisa deste texto, que seja esta: meça as suas horas faturáveis antes de dividir. Todo o resto — encargos, impostos, benefícios — é aritmética que um contador resolve. O divisor errado é o erro que ninguém corrige por você, porque ninguém além de você sabe que ele existe.
E lembre-se: o valor hora é uma meta, não um teto. À medida que você entrega projetos, constrói portfólio e expande sua rede, seu preço deve subir junto.
Referências
- Robert Half. Guia Salarial 2026 — Desenvolvedor(a) Back-End Júnior, Pleno e Sênior em São Paulo. roberthalf.com
- Robert Half. Guia Salarial 2026 — Desenvolvedor(a) Back-End Sênior em São Paulo. roberthalf.com
- HUNT IT. Salário de Desenvolvedor Sênior no Brasil em 2026: guia completo por stack e cidade. Fevereiro de 2026. huntit.com.br
- Contabilizei. INSS pró-labore 2026: tabelas, teto e como calcular. contabilizei.com.br
- Agilize Contabilidade. Tributação de desenvolvedor com CNPJ: pague 6% com Fator R. agilize.com.br
- Contmatic Simplifique. Tabela Simples Nacional 2026: alíquotas e faixas do DAS. simplifique.contmatic.com.br
- IBGE. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — série histórica. ibge.gov.br
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