Construindo o PIX no BS2: sete meses, um prazo do Banco Central e um AirBnB em BH
Como foi sair do time B2B em São Paulo para o time de projetos especiais do core bancário e atravessar 2020 construindo o PIX, com data de lançamento definida pelo Banco Central, plantão de sobreaviso e o mercado inteiro colaborando em grupos de WhatsApp.
Em abril de 2020 eu saí de um time B2B em São Paulo e entrei no time de projetos especiais do core bancário. A primeira coisa que me contaram na nova mesa foi que o Banco Central tinha marcado o lançamento do PIX para novembro. Não era uma meta de roadmap. Era uma data.
Abril de 2020: a mudança de mesa
Eu estava num time B2B em São Paulo. Era um trabalho confortável no sentido em que a régua era conhecida: cliente pedia, a gente entregava, o prazo era negociável na margem.
Antes de contar como saí dele, preciso explicar a geografia do banco, porque ela é metade da história.
A estrutura era dividida em BUs — business units, ou tribos —, e cada uma tinha marketing, comercial, produto e engenharia próprios. A BU de Pessoa Jurídica, onde eu estava, era inteiramente baseada em São Paulo, do marketing à engenharia, assim como as BUs de câmbio e investimentos. Em Belo Horizonte ficavam a BU de Pessoa Física e todo o resto do banco: o core bancário — com serviços financeiros dentro dele — e a estrutura de apoio, do financeiro e da tesouraria ao RH, ao marketing institucional e à publicidade.
Eu estava na squad de BaaS e API banking, dentro da BU PJ. Ou seja: o lugar para onde eu queria ir ficava a quase 600 quilômetros de onde eu trabalhava, e não por acaso — era assim que o banco estava organizado.
E eu queria ir. Já tinha manifestado interesse em atuar no core bancário antes de existir qualquer conversa sobre PIX. Meu alvo, na verdade, era o SPB — o Sistema de Pagamentos Brasileiro, que na época era por onde passavam TED e DOC. Eu queria entender como o dinheiro sai de uma instituição e entra em outra de verdade, no nível do protocolo. Não fazia ideia de que existia um SPI — o Sistema de Pagamentos Instantâneos, a infraestrutura sobre a qual o PIX ia rodar —, muito menos de que ele estava sendo construído naquele momento.
Ajudou que aquele não era um destino cheio de estranhos. O head de serviços financeiros era mineiro, mas vinha de ter sido PO da área de internet banking do braço PJ em São Paulo — eu já o conhecia da mesma BU, ainda que de outra squad. E o diretor de TI era o antigo head de tecnologia daquele mesmo braço PJ, promovido a CIO no começo de 2020. As duas pessoas que decidiam sobre o projeto tinham saído da estrutura de onde eu vinha.
O convite apareceu numa conversa de demissão
Esta é a parte que eu conto em conversa de carreira e que não cabe em currículo nenhum.
Eu tinha recebido uma proposta externa de uma adquirente da Faria Lima. Salário maior. Mas a vaga era em Java, uma tecnologia que eu não usava — seria trocar de empresa e de stack ao mesmo tempo. Marquei uma conversa com o diretor de TI para pedir demissão.
Foi nessa conversa que o convite apareceu: um time em Belo Horizonte, dentro do core, num projeto que ele ainda não podia detalhar. Não era contraproposta genérica de salário. Era exatamente a coisa que eu tinha dito que queria, oferecida no momento exato em que eu estava saindo pela porta.
Dizer em voz alta, com antecedência e para as pessoas certas, para onde você quer ir muda o que te oferecem quando algo surge. Se eu nunca tivesse falado do core, aquele convite não teria como existir.
Oportunidade grande raramente vem de processo seletivo interno bem divulgado. Vem de quem já viu você trabalhar e precisa de gente rápido — e as pessoas com quem você trabalhou há dois anos são o pipeline de vagas mais confiável que você tem.
E a menos confortável: a conversa de saída costuma ser a primeira em que a empresa escuta você com atenção total. Isso é falha de gestão, não estratégia sua. Vale saber que acontece, e é péssimo motivo para pedir demissão de blefe — porque às vezes aceitam.
Aceitei. E, como o interesse era anterior, mudar para BH não me pareceu castigo — o que não impediu que algumas pessoas da BU PJ em São Paulo me perguntassem, com preocupação sincera, se eu tinha pedido para ir ou se aquilo tinha sido imposto. Sair de São Paulo para Belo Horizonte, na cabeça de boa parte do mercado de tecnologia paulistano, só podia ser punição.
O time era o de projetos especiais dentro de serviços financeiros. Na prática, isso significa a camada onde a conta corrente existe de verdade: débito, crédito, saldo, lançamento, conciliação. É a parte do banco onde ninguém aplaude quando funciona e todo mundo aparece quando não funciona.
A diferença cultural entre os dois mundos foi imediata. No B2B, um bug ruim é um cliente irritado. No core, um bug ruim é dinheiro no lugar errado — e, com o PIX, dinheiro no lugar errado em menos de dez segundos, sem janela de estorno automático, no fim de semana, às três da manhã.
E tudo isso acontecendo em 2020, na primeira onda da pandemia — num projeto que ninguém tinha feito antes porque o sistema ainda não existia em lugar nenhum do mundo naquele formato. A mudança de mesa e o fechamento dos escritórios aconteceram, literalmente, na mesma semana.
A semana em Belo Horizonte
Eu ia me mudar no domingo. Perdi o voo. Cheguei em Belo Horizonte na manhã de segunda-feira e fui direto para o escritório novo à tarde.
O banco ocupava uma torre na cidade, mas o time de projetos especiais não estava em nenhum dos andares de escritório: estávamos numa sala temporária no térreo. Provavelmente por falta de espaço lá em cima, e por sermos um time novo, emergente e urgente ao mesmo tempo. Guardei aquela imagem por anos — o projeto que se tornaria o mais estratégico do banco começou numa sala emprestada no térreo, com gente que tinha acabado de se conhecer.
Na segunda à noite, pelos grupos de WhatsApp, ficamos sabendo que o time de São Paulo tinha ido para home office. Sobre Belo Horizonte, nada. Terça foi um dia de trabalho absolutamente normal: escritório cheio, e almoço num restaurante típico mineiro, o único por ali. Terça à noite chegou o aviso de que, a partir de quarta, BH também ficaria em casa.
Quarta-feira eu já trabalhava do AirBnB.
Foi nesse dia que troquei mensagens com o diretor de TI para entender o que ele achava — se eu ficava ou voltava. Ele era de São Paulo, morava lá com a família e passava só a semana em BH, então o dilema era exatamente o mesmo, com dez anos a mais de bagagem. O conselho foi voltar durante a quarentena. A conta era prática: aquilo supostamente duraria quarenta dias, eu não conseguiria procurar nem alugar nada naquela situação, e ficar significava queimar dinheiro em AirBnB para trabalhar sozinho num apartamento vazio. A gente estimava o prazo olhando para os países que já estavam confinados na época — o que, em retrospecto, foi o palpite mais otimista de todos.
Arrumei as coisas, avisei o head do time e o especialista que mais tarde assumiria o lugar dele, e peguei um táxi para o aeroporto ainda na quarta, com medo de não conseguir táxi nenhum de madrugada. Meu voo era quinta, às cinco da manhã.
Na quinta-feira eu já estava trabalhando de São Paulo. E fiquei remoto dali em diante, sem interrupção, até sair do banco em 2021.
Foram dois dias de escritório e uma passagem de volta. A mudança para Belo Horizonte, que em março era a grande decisão de vida do ano, simplesmente evaporou: a pandemia derrubou o argumento de "estar junto", o projeto começou a andar mesmo assim, e a proposta nunca mais foi retomada.
Construí o PIX inteiro de São Paulo, remoto, com o time em BH — o que em 2020 ainda parecia uma concessão excepcional e não o padrão.
Olhando de hoje, com anos morando fora, aquela semana foi um ensaio muito barato de uma coisa que eu faria de verdade depois: chegar num lugar onde você não conhece ninguém, ter poucos dias para entender como as coisas funcionam e decidir se fica. A diferença é que, das outras vezes, não teve voo de volta na quinta.
O prazo não era do time. Era do Banco Central.
Esse é o ponto que mais me marcou como engenheiro, e o que mais tento explicar quando alguém pergunta como era trabalhar em banco.
A maior parte dos prazos de software é ficção compartilhada. Alguém estimou, alguém dobrou a estimativa, alguém cortou escopo, a data anda. O PIX não funcionava assim. O cronograma era publicado pelo Banco Central, valia para todo o sistema financeiro nacional ao mesmo tempo, e o não cumprimento das exigências e dos prazos podia virar ação de supervisão direta sobre a instituição.
A Carta-Circular BACEN/DECEM nº 4.056, de 25 de maio de 2020, estabeleceu os procedimentos de adesão ao arranjo. Além da etapa cadastral e da homologatória, ela criou uma coisa que engenheiro nenhum estava esperando: um processo formal de aprovação da interface do aplicativo. As instituições tinham que enviar ao BC um anteprojeto, depois um projeto, depois a versão final — com telas ilustrativas — mostrando a dinâmica de acionamento do ambiente dedicado ao PIX, onde as funcionalidades ficariam dentro do app e como apareceriam nos menus, atalhos e botões de acesso rápido.
O calendário público ficou assim:
| Data | Marco | O que estava em jogo |
|---|---|---|
| Maio/2020 | Cartas-Circulares 4.055 e 4.056 | Regras de adesão e de homologação |
| Agosto/2020 | Regulamento do PIX e manuais técnicos | Especificação fechada — o alvo para de se mexer |
| 05/10/2020 | Início do registro de chaves | DICT em produção, com usuário real |
| 03/11/2020 | Operação restrita (soft opening) | Dinheiro real, base limitada de clientes |
| 16/11/2020 | Lançamento para toda a população | Sem plano B |
Repare no espaço entre agosto e outubro. A especificação técnica definitiva sai em agosto; o DICT precisa estar em produção em 5 de outubro. Dois meses. E o registro de chaves foi antecipado — originalmente estava previsto para 3 de novembro — justamente para dar mais tempo de rodagem ao sistema, o que do lado de dentro significou o oposto: o primeiro entregável chegou dois meses antes.
Quem fez o quê
Vale começar pelo estado em que eu encontrei o time, porque ele não era o time que entregou o PIX.
Quando cheguei, projetos especiais tinha eu, mais um desenvolvedor, um arquiteto, dois analistas de negócio, um especialista financeiro e um head. Poucas semanas depois, os dois analistas e o head foram desligados, e o especialista assumiu a coordenação. Sobraram o arquiteto e nós dois, olhando para um prazo publicado pelo Banco Central.
Vale traduzir esses dois cargos, porque eles não têm equivalente óbvio no vocabulário de quem trabalha em produto digital. O especialista financeiro acumulava a função de gerente de projetos: era quem entendia do negócio bancário e ao mesmo tempo tocava cronograma, escopo e dependências. Não havia papel de agile, product owner ou scrum master ali — aquela era uma cultura de projeto tradicional, com gerente e plano, não de squad com cerimônia. E head, no organograma do banco, era o gerente ou superintendente do departamento, responsável pelo time e pelo projeto perante a diretoria.
O time foi remontado durante o projeto. Entraram mais quatro desenvolvedores ao longo dos meses — alguns vinham de fora e já tinham trabalhado com gente dali em outros bancos, e um veio do próprio core, com experiência em conta corrente, débito e crédito. Esse último detalhe não é acessório: ter alguém que já sabia como o dinheiro se move dentro da instituição vale mais, num projeto desses, do que qualquer familiaridade com a especificação nova, porque a especificação todo mundo ia ter que aprender do zero de qualquer jeito.
A divisão foi por domínio, não por camada. Cada frente era dona de uma fatia funcional de ponta a ponta, e a conta fechava exatamente: três frentes, cada uma com um sênior e um pleno. A borda da RSFN não entrava nessa conta — ela ficou praticamente inteira com o arquiteto, o profissional mais sênior do time, trabalhando sozinho.
Fora da engenharia havia mais três pessoas, e demorei a entender que elas não eram overhead — eram parte do sistema.
Dois analistas de negócio traduziam manual do BC em requisito. Isso parece função de cerimônia até você tentar ler o Manual de Padrões para Iniciação e descobrir que a resposta para “o que acontece se a chave existir mas a conta estiver encerrada” está espalhada em três documentos e um catálogo de erros. Ter alguém cuja função é ser dono dessa leitura poupou o time de descobrir divergência de interpretação em homologação.
A terceira era a função que mais me surpreendeu: uma piloto de reserva. É um cargo técnico da área financeira, não de engenharia de software. O piloto de reserva — ou operador de reservas — acompanha em tempo real os saldos da instituição junto ao Banco Central, garante que exista liquidez para cobrir as liquidações e atua nas contingências, evitando que ordens de pagamento sejam rejeitadas por falta de saldo na conta de liquidação. Ela vinha do SPB e, com o passar dos meses, acabou fazendo mais parte do nosso time do que da operação original.
Na época eu achei que aquilo fosse um improviso nosso — alguém do SPB (TED e DOC) emprestado ao SPI (PIX). Não era. A função de piloto de reserva do SPI se consolidou como cargo próprio no mercado brasileiro. Anúncios de vaga para a posição descrevem exatamente esse escopo: domínio operacional do STR, no SPB, e do SPI, monitoramento de saldo intradiário via RSFN, contingência e tratamento de devoluções e MED. Há inclusive provedores que vendem, como diferencial para participantes indiretos, um piloto de reservas próprio, sem depender do piloto de reservas do liquidante direto.
Vale distinguir duas coisas que eu confundia. O que a norma exige na adesão ao PIX é a indicação de um diretor estatutário responsável perante o Banco Central pelas questões do SPI — isso é governança. O piloto de reserva é função operacional, criada pela necessidade concreta de manter liquidez numa conta que liquida 24 horas por dia. Uma coisa responde ao regulador; a outra impede que a transação seja rejeitada às três da manhã de domingo.
Plantão: a primeira vez que fiquei de sobreaviso
Um sistema que liquida 24 horas por dia, sete dias por semana, não tem noite. Essa frase é óbvia no papel e brutal na prática: significa que alguém precisa estar acordável às três da manhã de domingo. Foi a primeira vez na minha carreira que entrei numa escala de sobreaviso.
O desenho do pareamento foi a parte mais inteligente. Ficávamos em duplas, de preferência com pessoas de duas frentes diferentes, e cada um precisava ter conhecimento básico das outras duas frentes. A lógica é direta: às três da manhã você não quer descobrir que o único problema possível é exatamente o da frente que ninguém da dupla conhece. Não era rodízio de especialista, era cobertura cruzada deliberada.
| Regime | Jornada | Sobreaviso no dia útil | Fim de semana |
|---|---|---|---|
| PJ (meu caso) | 8 h | 16 h | 24 h |
| CLT | 9 h — 8 de trabalho e 1 de almoço | 15 h | 24 h |
A semana de plantão começava à meia-noite de sábado para domingo e terminava às 23h59min59s do sábado seguinte. Sete dias corridos de disponibilidade, com os fins de semana cobertos integralmente.
A recomendação era ficar perto do notebook ou andar com ele, e evitar lugares de onde não desse para atuar. Na prática, era uma semana sem cinema, sem viagem, sem trilha, sem nada que te deixasse longe de uma tomada e de uma conexão decente. E aqui vem a parte que eu acho importante registrar, porque muita empresa faz o oposto: isso era remunerado. O sobreaviso pagava por si só, e o acionamento pagava a mais.
Não foi imposto. A escala foi apresentada, discutida, questionada e votada antes de entrar em operação, e os valores foram negociados diretamente com as respectivas consultorias. Isso parece detalhe e não é: em muito lugar, plantão aparece como “expectativa da senioridade” e nunca vira linha em contrato. Ser pago para ficar em casa numa semana, e mais ainda para trabalhar de madrugada, é o mínimo que torna a coisa sustentável.
Eu era o único PJ do time do PIX. Todos os outros também eram terceirizados, mas contratados em regime CLT pelas suas respectivas consultorias.
Numa semana de plantão, lancei 16 horas de sobreaviso por dia na planilha. O sistema esperava 15. Resultado: recebi um questionamento do RH do próprio banco, e tive que ser eu — o PJ, terceiro, de fora — a explicar ao RH da instituição por que o meu número era diferente do dos meus colegas. A conta era simples: os CLTs tinham jornada de 9 horas porque a hora de almoço entra na janela, e eu, PJ, não tinha intervalo contratual, então trabalhava 8 e ficava disponível 16.
Era uma diferença de um único número numa planilha, mas ela expunha duas relações de trabalho distintas convivendo no mesmo time. E tinha sido conferida com a minha consultoria antes.
Essa diferença tinha um componente geográfico que eu só entendi com o tempo. Todas as consultorias do time eram de Belo Horizonte, e todas contratavam em CLT. As consultorias e os prestadores de São Paulo, de onde eu vinha, preferiam quase sempre o modelo PJ. Não era coincidência: era cultura regional de contratação em tecnologia naquele momento.
Vale separar as duas camadas dessa história. Do ponto de vista estritamente legal, contratar em CLT é o caminho correto e sem zona cinzenta — a pejotização de trabalho subordinado é justamente o ponto contestado. Do ponto de vista de quem estava sendo contratado, em São Paulo a prática já era costume consolidado, e eu preferia o modelo PJ — assunto que eu destrincho com calma em CLT ou PJ: qual escolher — — e ainda prefiro, desde que o valor seja coerente com o que ele custa em direitos abdicados. Essa ressalva não é decorativa: PJ com valor de CLT é só CLT sem férias, sem 13º, sem FGTS e sem estabilidade.
O mercado inteiro no mesmo grupo de WhatsApp
Se eu tivesse que escolher a coisa mais atípica daquele projeto, não seria técnica. Seria o fato de que os concorrentes conversavam entre si, todos os dias, em grupos de WhatsApp.
Não era um grupo. Eram vários, com gente de instituições financeiras e instituições de pagamento diferentes, e neles se discutia o que o manual do Banco Central queria dizer numa passagem ambígua, que código de erro o SPI devolvia numa situação específica, se alguém já tinha conseguido passar em determinada etapa de teste, o que o BC tinha respondido a uma dúvida formal. Havia também eventos online promovidos pelos próprios PSPs, para alinhar expectativas e planejamento com o que estava sendo determinado pelo regulador.
E, para nós, aquilo virou networking de um tipo que não se constrói em conferência. Você passa meses resolvendo um problema difícil junto com pessoas de outras empresas, sob a mesma pressão, e sai dali sabendo quem é bom, quem responde e quem entende do assunto. Boa parte das conexões profissionais que eu levei do Brasil vieram daqueles grupos.
Primeiro homologado, e a semana seguinte no LinkedIn
A homologação junto ao Banco Central tinha três etapas: teste de capacidade e performance, teste de funcionalidade do registro de chaves e aprovação do novo projeto do aplicativo — aquele mesmo anteprojeto da Carta-Circular 4.056 que abriu este texto. O banco passou nas três e a notícia saiu no fim de setembro e no começo de outubro de 2020: primeira instituição financeira digital com plataforma PIX totalmente homologada pelo Bacen.
Um número dessa etapa vale ser posto ao lado do gráfico dos percentis do Manual de Tempos, na segunda parte. O teste de performance de liquidação exigia responder em até 2,3 segundos. A plataforma respondeu em 242 milissegundos — cerca de dez vezes abaixo do exigido. É exatamente a linha “autorização pelo PSP do recebedor, P95, 2,3 s” daquela tabela, vista do lado de quem estava sendo medido.
Na semana em que a notícia foi publicada, praticamente todo mundo do time recebeu convite de entrevista no LinkedIn. E não eram abordagens genéricas de recrutador: eram propostas tentadoras, de empresas que sabiam exatamente o que aquele time tinha acabado de fazer.
Foi a primeira vez que eu vi, na prática, o mercado precificar uma linha de currículo em tempo real. Ninguém tinha ficado melhor como engenheiro em sete dias. O que mudou foi a prova pública de que aquele grupo tinha entregue algo difícil, com prazo regulatório, antes de todo mundo.
Guardo isso como a lição mais desconfortável do projeto: competência é necessária, mas é a evidência verificável dela que abre porta. Trabalhar em coisa que aparece — ou em coisa cujo resultado alguém consegue conferir — muda a sua carreira mais rápido do que trabalhar bem em silêncio.
O que eu levei desse projeto
Prazo externo é um tipo diferente de restrição, e é libertador. Quando a data não é negociável, a conversa deixa de ser “quando fica pronto” e passa a ser “o que entra na primeira versão”. Isso força priorização honesta muito mais rápido do que qualquer cerimônia de planejamento.
Especificação instável é o inimigo real, não o volume de código. Os manuais técnicos evoluíram durante o desenvolvimento. Quem tinha isolado a borda absorveu; quem tinha espalhado o formato do BC por dentro do domínio, refez.
Em sistema financeiro, o caminho de exceção é o produto. Confirmação é fácil. Timeout, resposta duplicada, resposta tardia, estorno de estorno — é aí que mora o trabalho, e é aí que mora o dinheiro.
Idempotência não é otimização. Num sistema onde a mesma mensagem pode chegar duas vezes por desenho da rede, ela é a diferença entre um sistema correto e um sistema que cria dinheiro.
Cinco anos depois
O PIX virou infraestrutura pública invisível. Ninguém mais lembra que aquilo era um projeto com risco de não sair, e é exatamente esse o sinal de que deu certo: sistema financeiro bem-feito é aquele em que ninguém pensa.
Do meu lado, foi o projeto que mais me ensinou por unidade de tempo em toda a carreira no Brasil. Não pela stack — .NET, RabbitMQ e SQL Server eu já conhecia — mas pela combinação de prazo inegociável, especificação em movimento e consequência real do erro. Um mês depois do lançamento eu embarquei para o Porto — a primeira vez que saí do Brasil para trabalhar, e boa parte da confiança para aceitar aquilo veio de ter atravessado 2020 dentro do core de um banco.
E a mudança para Belo Horizonte, que era a grande decisão de vida em abril, virou uma semana de AirBnB e uma passagem de volta. Às vezes a mudança importante do ano não é a que estava no plano.
Referências
- Banco Central do Brasil. Carta Circular nº 4.056, de 25 de maio de 2020 — procedimentos para adesão ao arranjo de pagamentos instantâneos (PIX). normativos.bcb.gov.br
- Banco Central do Brasil. Carta Circular nº 4.055, de 25 de maio de 2020 — cronograma dos testes de homologação dos participantes diretos no SPI. normativos.bcb.gov.br
- Agência Brasil. Começa hoje registro de chaves digitais do Pix — cronograma oficial de 5/10, 3/11 e 16/11 de 2020. agenciabrasil.ebc.com.br
- InfoMoney. Pix: fase restrita começa em 3 de novembro com clientes e horários limitados. infomoney.com.br
- TudoCelular. BS2 é o primeiro banco digital totalmente homologado pelo Bacen para o PIX — aprovação nas três fases de teste. tudocelular.com
- Seu Crédito Digital. PIX: BS2 é o primeiro banco aprovado no teste de performance do Banco Central — 242 ms contra o limite de 2,3 segundos. seucreditodigital.com.br
- JD Consultores. O papel do piloto de reserva bancária nas instituições financeiras — monitoramento de saldos, liquidez e contingência, incluindo madrugadas e fins de semana com o Pix em operação. jdconsultores.com.br
- Conta Simples. Anúncio de vaga de analista sênior de tesouraria (piloto de reserva) — domínio operacional do STR e do SPI, saldo intradiário via RSFN, contingência, devoluções e MED. Anúncios de vaga saem do ar; consultado em agosto de 2026. contasimples.gupy.io
- Corner Pix. Participante indireto com piloto de reservas próprio, sem interferência do piloto de reservas do liquidante SPI direto. cornerpix.com.br
- Tribunal Superior do Trabalho. Nova redação da Súmula 428 reconhece sobreaviso em escala com celular — aplicação analógica do art. 244, §2º da CLT. tst.jus.br
Categorias