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Trabalhando pelo mundo #2 — Dubai: seis meses remoto do Brasil antes de pisar no deserto

Uma mensagem no LinkedIn que ficou cinco semanas sem resposta virou dois anos na Talabat, do grupo Delivery Hero. Visto de trabalho nos Emirados, meio ano em remoto acordando às 3h da manhã, 47 dias em hotel, e uma semana de trabalho que mudou de dia no meio do caminho.

12 de August de 2026 · ~26 min de leitura · #trabalho-no-exterior #dubai #emirados-arabes-unidos ·
Parte de 2

A mensagem chegou em 26 de janeiro de 2021 e eu não respondi. Cinco semanas depois, a recrutadora insistiu — e essa insistência acabou definindo os dois anos seguintes da minha vida, mais tudo o que veio depois.

Este é o segundo post da série sobre os lugares onde trabalhei mudando de país. No primeiro capítulo eu contei sobre o Porto, a mudança que nunca aconteceu. Aqui a mudança aconteceu de verdade — só que com um intervalo curioso no meio: seis meses trabalhando para Dubai sem sair do Brasil.

O que você vai encontrar aqui
Cinco fases de entrevista, um visto que me registrou com uma profissão que não era a minha, meio ano acordando às 3h da manhã, 47 dias morando em hotel, réveillon de quarentena com vista para o Burj Khalifa — e o que me fez ir embora depois de quase dois anos.
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01

De onde eu vinha

Eu tinha acabado de sair do Banco BS2, onde trabalhei desde 2019 via K2 Partnering, e estava acumulando dois contratos ao mesmo tempo, ambos remotos e ambos como Senior Software Engineer: a Farfetch, full-time, via a consultoria portuguesa Multivision, em recibos verdes, com a mudança para o Porto sendo planejada; e a Grace Kennedy Financial Group — o maior grupo financeiro da Jamaica e do Caribe —, part-time, via a agência de recrutamento The Bridge Social.

O capítulo anterior explica a conta em detalhe, mas o resumo é este: os dois rendimentos somados ainda ficavam abaixo do que Dubai oferecia por uma vaga um degrau abaixo na escada de carreira — a carta de oferta trazia Software Engineer II, grade IC2.

O fato de eu ainda não ter me mudado para Portugal foi o que tornou tudo possível. Não havia contrato de aluguel, mudança despachada nem vida montada para desfazer.

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02

O processo seletivo

Como nos outros dois países da série, começou no LinkedIn.

Em 26 de janeiro de 2021, uma recrutadora da Talabat — plataforma de delivery do grupo alemão Delivery Hero, sediada em Dubai — me mandou uma mensagem. A abordagem trazia números de escala que hoje eu reconheço como o padrão do setor: milhões de usuários diários, centenas de milhares de pedidos por dia, milhares de funcionários e dezenas de nacionalidades. E a expressão que fazia o trabalho pesado da mensagem: salário isento de impostos.

Eu não respondi.

Não foi estratégia nem desdém. Eu tinha começado na Farfetch havia pouco mais de um mês, gostava do time, e a mudança para o Porto estava sendo planejada. Deixei para depois. O "depois" durou cinco semanas.

Em 4 de março ela mandou um follow-up dizendo que não tinha tido retorno. Dessa vez eu respondi em treze minutos, já com o currículo anexado. Ainda esperei mais uma semana, cobrei, e a call ficou marcada para 17 de março.

Isso me assusta um pouco até hoje: a decisão que definiu os anos seguintes chegou como uma notificação que eu não achei importante o suficiente para abrir. Oportunidade não chega anunciada como oportunidade — chega igualzinha ao resto do ruído.

Seis conversas até a oferta

Aqui a diferença em relação ao Porto é gritante. Na Farfetch foram duas entrevistas e nenhum teste técnico. Na Talabat foram seis etapas, com avaliação técnica de verdade.

#EtapaCom quem
1ScreeningA recrutadora que me abordou
2Entrevista de RHOutra pessoa do time de recrutamento
3Live codingDois engenheiros sêniores
4System designOutros dois engenheiros sêniores
5Entrevista finalVP de Engenharia — mistura de tudo
6Conversa de alocaçãoO engineering manager da squad, já com a decisão tomada

Repare na ordem da última etapa: eu só conversei com quem seria meu gestor depois de aprovado, quando já tinham decidido para qual squad eu iria. Não foi uma entrevista — foi uma apresentação.

Dois processos, duas filosofias
Porto: duas conversas, zero código escrito, decisão em catorze dias. Dubai: duas avaliações técnicas separadas — live coding e system design —, com quatro engenheiros sêniores diferentes entre as duas. Nenhum dos dois é errado — mas o segundo diz muito mais sobre uma empresa que contrata em volume e precisa de um critério que escale. Se você está mirando o Golfo, prepare-se para system design: é a etapa que mais elimina gente com experiência de sobra.
Oferta com prazo de validade
A carta de oferta chegou em 21 de abril de 2021 e era válida por três dias úteis. É prática comum em empresas de crescimento acelerado e funciona como instrumento de pressão: reduz o tempo de comparar propostas, consultar família e fazer a conta com calma. Se você receber uma assim, saiba que pedir extensão de prazo é normal — e que a reação a esse pedido já diz muito sobre a empresa.
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03

Contratação, visto e burocracia

Aqui a diferença em relação ao capítulo anterior é enorme. No Porto eu seria prestador de serviço por recibos verdes, com toda a responsabilidade fiscal nas minhas costas. Em Dubai eu fui empregado, com contrato regido pela lei trabalhista dos Emirados.

O que vinha no pacote

Vínculo
Empregado direto, sem consultoria no meio. Três meses de período probatório e um mês de aviso prévio, conforme a lei local.
Composição salarial
Salário dividido em base mais subsídios de moradia, transporte e telefone — formato padrão nos Emirados.
Passagem anual
Benefício de passagem aérea por ano, previsto em política da empresa.
Seguro-saúde
Obrigatório por lei nos Emirados e custeado pelo empregador.
Pacote de mudança
Passagem só de ida e cerca de um mês de hotel para quem vinha de fora.
Imposto de renda
Zero sobre salário. Bruto e líquido praticamente coincidem.
Por que o salário nos Emirados vem fatiado
Não é firula de contracheque. A indenização de fim de serviço — o gratuity, algo próximo do nosso FGTS em função — é calculada apenas sobre o salário base, não sobre o total. Duas propostas com o mesmo valor bruto podem render indenizações bem diferentes dependendo de como estão divididas. É a primeira coisa que eu olharia hoje numa oferta de lá.

Eu não vou publicar os valores da minha proposta — mas vale registrar o raciocínio, porque ele é mais útil que o número. Ao comparar uma oferta dos Emirados com uma europeia, três coisas mudam a conta inteira: não há imposto de renda sobre salário, o que aproxima bruto e líquido; não há previdência pública acumulando em seu nome, então a aposentadoria é integralmente responsabilidade sua; e o custo de vida em Dubai é alto, especialmente moradia, o que devolve boa parte da vantagem. O que sobra de fato no fim do mês é uma conta de três variáveis, não de uma.

O visto — e a profissão que eu nunca exerci

Todo o processo foi conduzido pela empresa, com a papelada chegando por e-mail. E foi aqui que apareceu a consequência mais inesperada de um detalhe que já tinha aparecido no capítulo do Porto: eu não tenho diploma de curso superior.

Sem diploma, o visto emitido foi o de categoria não qualificada. Perante o governo dos Emirados, eu fiquei registrado como Filing Clerk — arquivista. Meu cargo na empresa, minhas responsabilidades e os valores acordados permaneceram exatamente os mesmos; a divergência existia só no papel do Ministério.

O que isso significa na prática
A classificação da sua profissão no visto não é decorativa: em vários países do Golfo ela influencia categoria de residência, possibilidade de patrocinar familiares, faixas de taxa e — dependendo do caso — o próprio processo de renovação. Se você não tem diploma, ou tem um diploma que não será atestado a tempo, pergunte antes de assinar qual categoria de visto a empresa vai solicitar e o que ela limita. No meu caso não gerou problema; mas eu descobri depois, não antes.

Exames médicos e direitos trabalhistas

O trâmite de residência inclui uma bateria obrigatória feita em órgãos do governo local, com agendamento pela empresa:

Raio-X de tórax
Rastreio de tuberculose, obrigatório para o visto de residência.
Exame de sangue
Parte do protocolo sanitário exigido de todo estrangeiro.
Palestra sobre direitos trabalhistas
Sessão obrigatória explicando a legislação local ao trabalhador estrangeiro.

A empresa agendava tudo, mas o deslocamento até os postos era por minha conta — com exceção da palestra. É um detalhe pequeno que ilustra bem o padrão de um pacote de relocação: quase tudo coberto, e uma faixa de despesas miúdas que ninguém menciona e que fica com você.

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04

Seis meses trabalhando para Dubai sem sair do Brasil

Eu comecei em 30 de maio de 2021 e passei quase seis meses em remoto, do Brasil. Na prática, foi uma repetição do arranjo que eu já vinha fazendo com Portugal — trabalhar para um país onde eu ainda não morava — mas com uma diferença essencial: dessa vez a mudança realmente aconteceu.

Acordar às 3h da manhã

O fuso é o que muda tudo. Portugal está três ou quatro horas à frente do Brasil; Dubai está sete. Não existe manhã em comum.

A daily era às 11h de Dubai, o que me colocava de pé por volta das 4h da manhã. Depois o horário foi antecipado para 10h de Dubai — porque parte do time estava em remoto na Europa e o horário de verão da Ucrânia e da Croácia empurrou a cerimônia para trás. Para mim, isso significou passar a acordar às 3h.

O custo invisível do "remoto internacional"
Quando a vaga diz "trabalho remoto para o exterior", o que raramente aparece na descrição é de quem é o ônus do fuso. Não foi negociação nem imposição — a daily existia no horário que funcionava para a maioria, e eu era a minoria. Se você está avaliando algo assim, calcule antes: acordar às 3h da manhã todos os dias úteis não é um detalhe logístico, é uma alteração estrutural na sua vida.

Havia ainda dois atritos que ninguém antecipa. O primeiro era a semana de trabalho diferente: nessa época os Emirados trabalhavam de domingo a quinta, então meu domingo era dia útil e minha sexta era dia morto. O segundo era mais prosaico: queda de energia e de internet. Algumas vezes eu simplesmente não consegui trabalhar — e quando a sua casa é o escritório de uma empresa a onze mil quilômetros, não existe “vou usar a máquina do escritório”.

O equipamento

Comecei tudo com o meu próprio notebook, com Windows. A empresa chegou a me enviar um MacBook, despachado de Dubai para o Brasil, mas eu usei pouquíssimas vezes — preferi seguir na minha máquina, no ambiente que eu já dominava.

Como eu recebia — a parte mais complicada

Essa foi a engenharia financeira menos óbvia de toda a mudança.

FaseComo o dinheiro chegava
Primeiros ~2 mesesPagamento em dólar na conta global da minha empresa, oferecida pelo meu banco brasileiro. Bastou informar IBAN e BIC/SWIFT.
Restante do remotoMigrei para minha conta em Portugal, aberta ainda na época da Farfetch, e de lá remetia ao Brasil — por transferência direta ou comprando criptomoeda em corretora.
Primeiro mês em DubaiEm dinheiro vivo, retirado numa casa de câmbio local.
Depois dissoConta bancária local, aberta numa agência em Dubai.
Conta global não é offshore
Vale desfazer a confusão, porque o vocabulário atrapalha. A conta global é um produto bancário comum: o seu banco brasileiro abre para você uma conta em moeda estrangeira e usa uma instituição no exterior como intermediária para liquidar as ordens. No meu caso, a intermediação passava por uma praça financeira do Caribe e por um banco correspondente americano — arranjo padrão de correspondent banking, que é como praticamente toda transferência internacional funciona.

Isso não tem nenhuma relação com "abrir uma offshore". É uma conta contratada num banco brasileiro, sujeita às regras do Banco Central, informada à Receita Federal como qualquer outra e declarada normalmente. A estrutura de correspondentes é da instituição, não sua — você só vê um IBAN e um SWIFT.
Por que o pagamento em dólar funciona nos Emirados
O dirham é atrelado ao dólar americano a uma paridade fixa mantida há décadas. Isso torna o pagamento em USD trivial para a empresa e previsível para você: não há risco cambial entre as duas moedas. É uma das razões pelas quais arranjos internacionais de pagamento são tão comuns por lá.

Receber o primeiro salário de Dubai em dinheiro, no balcão de uma casa de câmbio, é uma daquelas cenas que resumem uma cidade inteira. Eu vinha de meses de transferência internacional entre três países e quatro instituições, e o primeiro pagamento presencial foi o mais analógico possível: fila, guichê, cédulas contadas na sua frente. Ainda não havia conta local, e a economia dos Emirados simplesmente tem essa camada em espécie funcionando com naturalidade.

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05

A mudança: um voo, uma final e 47 dias de hotel

O voo que eu tentei adiar

A data estava marcada: 26 de novembro de 2021, voo semanal de sexta-feira, de Guarulhos para Dubai, pago pela empresa. Eu pedi uma semana de adiamento. Negaram — e com uma certa razão, já que eu vinha empurrando havia seis meses.

O motivo do pedido: no dia 27 de novembro era a final da Libertadores, Palmeiras contra Flamengo, no Uruguai. Eu tinha tentado ir, sem sucesso.

Aterrissei em Dubai por volta das 19h do dia 27. Corri para o hotel, larguei as malas e fui assistir à final num bar, com um amigo que eu tinha conhecido pelos grupos de WhatsApp de brasileiros nos Emirados — alguém que, até aquele dia, eu nunca tinha visto pessoalmente.

Menos de três horas depois de pousar num país onde eu nunca tinha estado, eu estava num bar assistindo meu time ganhar a Libertadores, ao lado de alguém que eu só conhecia de grupo de WhatsApp.

E tem um detalhe que melhora a história: o cara era corintiano. Ou seja, eu comemorei o título do Palmeiras sentado ao lado do maior rival — alguém que, naquela noite, torcia com todas as forças pelo Flamengo. A doze mil quilômetros de casa, num bar em Dubai, a rivalidade continuava intacta e o encontro aconteceu mesmo assim.

Os grupos de brasileiros no exterior são muito subestimados: eles resolvem, em uma tarde, o problema que costuma levar meses — ter uma pessoa para chamar. E resolvem sem filtro de time, de cidade ou de qualquer outra coisa: lá fora, o que aproxima é a origem comum, e o resto vira piada de bar.

Aquilo era sábado. No domingo eu já estava no escritório: a semana útil nos Emirados ia de domingo a quinta.

Os empregos que a mudança encerrou

Durante o período em remoto do Brasil, eu não estava só na Talabat. Em 14 de junho de 2021 eu somei um contrato CLT com a filial brasileira de uma empresa americana — e havia ainda uma terceira frente, também parcial, num projeto de open banking. Foi a fase em que acumulei três vínculos ao mesmo tempo.

O contrato americano tem um detalhe que vale contar, porque é a melhor lição prática desta série sobre trabalho remoto internacional. O salário era acima da média de sênior no Brasil e muito abaixo da média de sênior nos Estados Unidos — o clássico salário LATAM: a empresa paga acima do mercado local e bem abaixo do mercado dela. E isso não era acidente, estava escrito no contrato. Exigia-se que eu estivesse na América Latina, por dois motivos declarados: fuso horário e custo de vida.

A cláusula que ninguém lê com atenção
Contratos de "remoto internacional" quase sempre trazem uma restrição geográfica. Não é burocracia decorativa: é o que sustenta a faixa salarial. Se você pretende mudar de país em algum momento, essa cláusula precisa ser a primeira coisa que você lê — porque ela decide se aquele emprego sobrevive ou não à sua mudança.

Sendo CLT, eu precisava estar legalmente residindo no Brasil. Manter o vínculo morando em Dubai era impraticável: além do fuso, a empresa poderia me convocar ao escritório de São Paulo a qualquer momento. Vale registrar também o que aquele contrato não oferecia: nenhuma previsão de mudança para os Estados Unidos, nenhum patrocínio de visto. Não era caminho para lugar nenhum — era um emprego remoto com teto geográfico embutido.

Então o embarque de novembro resolveu a questão sozinho. A mudança encerrou os contratos que dependiam de eu estar no Brasil, e eu fiquei só com a Talabat.

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Primeiro mês: presencial por necessidade

Meu gestor pediu que eu fosse ao escritório no primeiro mês. A justificativa tinha dois lados, e os dois faziam sentido: eu precisava me ambientar depois de meio ano conhecendo o time só por vídeo, e trabalhar de um quarto de hotel por semanas não é exatamente sustentável.

47 dias em dois hotéis

O pacote de contratação cobria cerca de 20 a 30 dias de hotel, perto do escritório em Business Bay. Terminado o prazo, eu ainda não tinha encontrado apartamento — pedi extensão e fui transferido para um segundo hotel, mais caro, com desconto negociado. No total foram 47 dias hospedado, entre dois hotéis, ambos em Business Bay.

Depois disso aluguei um apartamento em JLT — Jumeirah Lake Towers. Fazendo as contas, o valor do aluguel e o que me cobravam de diária ficaram próximos: descontado o período pago pela empresa, eu não saí perdendo com a demora.

Procurar imóvel em Dubai leva mais tempo do que o pacote cobre
Um mês de hotel parece generoso até você começar a procurar. Some visitas, negociação, e a burocracia local de contrato e pagamento — que tradicionalmente envolve cheques adiantados e conta bancária local já ativa. Se for negociar um pacote de relocação para os Emirados, considere pedir um prazo maior de acomodação desde o início, em vez de depender de extensão depois.

Ainda no segundo hotel, depois da confraternização de fim de ano da minha tribo, eu peguei covid. Passei o período entre o Natal e o Ano-Novo em quarentena, sozinho, num quarto de hotel, num país onde eu tinha chegado havia um mês.

A virada do ano eu assisti da janela — de frente para o Burj Khalifa, vendo a queima de fogos mais famosa do mundo do lado de fora do vidro. É uma imagem que eu não trocaria por nada, e que ao mesmo tempo resume bem o que ninguém conta sobre mudar de país: os melhores cenários costumam chegar em momentos que você não escolheu.

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06

A empresa, as tribos e os times

A Talabat nasceu no Kuwait em 2004 como plataforma de pedidos de comida online e, desde 2016, é subsidiária da alemã Delivery Hero. Opera em vários países do Oriente Médio — Kuwait, Bahrein, Emirados, Omã, Catar, Jordânia, Egito e Iraque.

Cargo
Software Engineer / .NET Developer
Tribo
Groceries / qCommerce
Tamanho
Cerca de 300 desenvolvedores; o grupo passa de 16 mil funcionários
Vínculo
Contratação direta, sem intermediário
Modelo
Híbrido — seis meses remoto do Brasil, depois presencial flexível em Dubai
Período
Maio de 2021 a março de 2023 — um ano e onze meses

Dois times, duas metades da jornada de compra

Minha passagem se dividiu quase ao meio, em dois times com escopos bem distintos.

PeríodoSquadEscopo
Mai–Dez/2021Grocery FulfillmentDo checkout até o entregador chegar à loja
Jan/2022–Mar/2023Shopping Experience
ex-FAST — Finding and Shopping Team
Da escolha da loja até o carrinho

Grocery Fulfillment cuidava do que acontece depois que o cliente finaliza a compra: garantir que o pedido fosse separado corretamente pela equipe da loja, até o momento em que o entregador chega para retirar. É um domínio muito menos glamouroso que “busca” e muito mais brutal — porque o mundo físico não colabora. O produto acabou na prateleira. O separador não achou o item. O cliente quer substituir por outro.

Shopping Experience — antes chamado FAST, de Finding and Shopping Team — atuava na metade anterior: depois que o usuário escolhe a loja e antes de ele ir para o carrinho. Busca, ofertas, descontos, produtos em destaque, navegação personalizada. O carrinho e o checkout eram de outro time, e a seleção de loja de um terceiro.

A anatomia de um app de delivery
Repare como o fluxo é fatiado entre times: escolher a loja, navegar e buscar, carrinho e checkout, separação do pedido, entrega. Cada fatia é um time inteiro. Isso explica por que empresas de delivery contratam tanta gente — e por que a integração entre esses pedaços é o problema mais difícil da casa.

O mapa-múndi dentro da squad

Essa foi a maior diferença cultural em relação a tudo que eu tinha vivido. Nas duas squads, eu nunca dividi time com alguém do mesmo país que eu — com uma única exceção, na segunda.

Engineering ManagerEngenheiros
Grocery FulfillmentNigériaEgito, Polônia, Ucrânia, Jordânia
Shopping ExperienceArgentina, criado na EspanhaÍndia, Paquistão, Brasil, Rússia

Meus dois gestores foram um nigeriano — hoje morando em Portugal — e um argentino criado na Espanha, hoje em Varsóvia. O detalhe de onde os dois estão atualmente diz bastante sobre Dubai: é uma cidade de passagem, inclusive para quem lidera.

Trabalhar sem cultura majoritária
Num time onde cada pessoa vem de um país diferente, não existe um "jeito padrão" implícito que todo mundo entende sem falar. Tudo precisa ser explicitado: o que significa um prazo, quando alguém está discordando, o que é uma pergunta e o que é uma cobrança. É mais trabalhoso — e é o ambiente onde eu mais aprendi a comunicar por escrito com clareza.
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07

O projeto e as tecnologias

O pano de fundo dos dois anos foi um só: migração de arquitetura monolítica para microsserviços. Todo o resto acontecia em cima disso.

C# .NET 5, 6 e 7
Base dos serviços e APIs, atravessando três versões do runtime em dois anos.
AWS
SQS para mensageria e Lambda para processamento sob demanda.
SQL Server e PostgreSQL
Dois bancos relacionais convivendo — típico de migração em andamento.
KrakenD, Luna e GoLang
Camada de BFF e API gateway, agregando serviços para o app.
Python
Presente no ferramental e nas frentes de dados.
DDD e TDD
Domain Driven Design nos dois times; Test Driven Development a partir do segundo.

O que eu construí

No Grocery Fulfillment, três frentes que eu gosto de contar porque são problemas que só existem quando software encosta no mundo real:

Heartbeat de catálogo
Monitoração de disponibilidade de item, permitindo ao separador marcar um produto como indisponível durante a separação.
Substituição de itens
Cliente, separador e retaguarda podendo trocar um item indisponível já dentro do pedido.
Robocalls
Ligações telefônicas automatizadas via integração com Asterisk.

O caso da substituição de item é o meu favorito para explicar o que é um domínio difícil: um pedido já pago, um produto que acabou, três atores diferentes com poder de alterar o mesmo carrinho ao mesmo tempo, e um entregador a caminho. Não é um problema de código — é um problema de modelagem de domínio, e é exatamente onde DDD deixa de ser sigla e vira ferramenta.

No Shopping Experience, o foco virou busca, ofertas e experiência de navegação, mais a construção da camada de BFF.

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08

A rotina

Se no Porto a palavra era calma, aqui a palavra é elevada. Empresa em hipercrescimento, escala grande, migração arquitetural em curso e um domínio que não perdoa erro.

A semana que mudou de dia

Historicamente, a semana útil nos Emirados ia de domingo a quinta-feira, com sexta e sábado como fim de semana, porque a sexta é o dia da oração congregacional no Islã.

Em 1º de janeiro de 2022, os Emirados mudaram para uma semana de segunda a sexta, com a sexta encurtada — tornando-se o primeiro país do Golfo a alinhar seu calendário ao ocidental. Eu vivi exatamente essa transição, que coincidiu quase perfeitamente com a minha troca de squad.

PeríodoSemana útilFim de semana
Até dez/2021Domingo a quintaSexta e sábado
A partir de jan/2022Segunda a sexta (sexta reduzida)Sábado e domingo

A mudança foi boa por duas razões práticas: alinhou o calendário com o resto do mundo e facilitou muito planejar viagens — quando seu fim de semana é sexta e sábado, quase todo voo e todo evento internacional cai fora dele.

E a sexta-feira nova ficou com uma personalidade própria. É comum que colegas muçulmanos parem no horário do almoço para a oração, e parte deles não retorna ao expediente. Isso transformava o dia num dia sem reuniões: dava para usar para foco, encerrar mais cedo por volta das 16h, ou simplesmente trabalhar normal. Sexta em Dubai passou a ter, ao mesmo tempo, cara de dia útil e clima de fim de semana.

Ramadã e jornada reduzida
Durante o mês do Ramadã, a lei trabalhista dos Emirados prevê redução da jornada diária — um benefício que, na prática, se aplica a todos os funcionários, muçulmanos ou não, na maioria das empresas. É uma das coisas que mais me marcou culturalmente: o calendário religioso não é um detalhe pessoal de quem pratica, ele reorganiza o funcionamento do país inteiro.

A semana desenhada por dia

Na segunda squad, o calendário tinha um desenho que eu passei a admirar bastante — sprints de duas semanas, com as cerimônias concentradas nas pontas:

DiaO que acontecia
SegundaReuniões de planejamento
Terça (manhã)Bugs sem prioridade e tickets de dívida técnica
Terça (tarde)Chapter — encontro por especialidade
QuintaDia de escritório
Última sexta do sprintRetrospectiva

O efeito colateral desse desenho é ótimo: como o sprint durava duas semanas e as cerimônias caíam numa sexta e na segunda seguinte, sobrava uma semana inteira sem reunião de processo. Bloco de foco de verdade, não aquele “no-meeting Wednesday” que dura até alguém marcar algo.

As terças eram reservadas para dívida técnica e para o chapter — a reunião de todos que trabalhavam na mesma especialidade, atravessando as squads, para propor soluções de alcance transversal. Havia chapter de backend (o meu), de produto, de frontend, de mobile nativo e de mobile em Flutter. O pessoal de infraestrutura, DevOps e plataforma participava de todos.

Por que chapters funcionam
Numa organização fatiada em squads verticais, cada time resolve seus próprios problemas — e as mesmas soluções acabam sendo reinventadas cinco vezes em paralelo. O chapter é o eixo horizontal que corrige isso: um espaço fixo onde a especialidade conversa consigo mesma. Reservar uma tarde por semana para isso, com dívida técnica de manhã no mesmo dia, é uma das coisas mais saudáveis que eu vi numa empresa desse porte.

Escritório, verão e a rotina social

O presencial era leve: em geral um dia por semana, normalmente às quintas. E no verão a régua caía drasticamente — algo como uma ida a cada dois meses, ou seja, cerca de duas vezes ao longo dos quatro meses de calor.

Faz todo sentido para quem já passou um verão no Golfo. Não é uma questão de conforto: com temperaturas que ultrapassam os 45 °C, sair de casa no meio do dia é uma decisão logística.

O verão também esvaziava a cidade. Muita gente voltava ao país de origem por semanas. Eu escolhi outra coisa: como tinha acabado de sair do Brasil, não tinha o menor interesse em voltar tão cedo, nem para visitar — usei o período para viajar pela Europa.

E havia um ritual que eu levo comigo: a cada um ou dois meses, um happy hour pago pela empresa. Algumas vezes o time chegou a fazer a retrospectiva do sprint num bar. A empresa cobria comida e narguilé; bebida alcoólica ficava por conta de cada um.

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09

Por que eu saí

Não foi uma decisão tomada num dia. Foram quatro coisas se acumulando.

1. O projeto deixou de me interessar

A frente em que eu estava não era o tipo de trabalho que eu queria fazer nos anos seguintes. Isso, sozinho, não faz ninguém mudar de país — mas remove a razão que faz você tolerar todo o resto.

2. Plantão não remunerado

Essa foi a fonte de desgaste mais concreta.

O telefone tocava toda terça-feira, às 6h da manhã — não por incidente real, mas porque a execução de testes de carga disparava o sistema de alertas, que ligava automaticamente para quem estivesse de plantão. Um alarme previsível, recorrente e inteiramente evitável, transformado em despertador semanal.

Somava-se a isso o trabalho real durante o plantão, causado com frequência por erros originados em outras squads, outros times e até outros países. Você acordava de madrugada para resolver algo que não era do seu domínio, sem remuneração adicional pelo regime de sobreaviso.

Pergunte sobre on-call antes de assinar
Plantão é o item que mais frequentemente fica de fora da conversa durante o processo seletivo, e o que mais afeta qualidade de vida depois. Vale perguntar explicitamente: existe escala de sobreaviso? É remunerada ou compensada em folga? Qual foi o volume real de acionamentos no último trimestre? Quantos deles eram alarmes falsos? Uma empresa que mede isso vai saber responder. Uma que não mede já respondeu.

3. O retorno ao presencial integral, avisado com dois dias

A empresa decidiu voltar ao escritório cinco dias por semana. A comunicação veio por e-mail numa segunda-feira, informando que a partir da quarta o presencial seria obrigatório.

Depois de quase dois anos de modelo híbrido — com verões de uma ida a cada dois meses —, a mudança em si já era grande. O prazo de dois dias para reorganizar a vida foi o que transformou uma decisão administrativa em sinal sobre a empresa.

4. O escritório ficou mais longe e mais caro

Em paralelo, a empresa mudou de prédio: saiu de Business Bay para o City Walk. O novo endereço ficava longe demais da estação de metrô para se fazer o trajeto a pé, o que empurrava a locomoção para o táxi — e encareceu o deslocamento diário.

Isoladamente, é um detalhe logístico. Combinado com a exigência de estar lá todos os dias, virou um custo diário concreto, em dinheiro e em tempo, imposto sem aviso.

Em fevereiro de 2023 eu vim à Europa a passeio. Tinha combinado a viagem com uma amiga que morava em Malta: Manchester, onde vive um dos meus melhores amigos; Londres, onde eu não conhecia ninguém na época; e Dublin, onde eu tinha vários amigos, incluindo dois dos mais próximos.

Eu vim como turista. Voltei tendo decidido morar aqui.

O processo, conduzido de Dubai

Do primeiro contato até eu escolher para onde ir levou cerca de dois meses. Dessa vez não foi o LinkedIn: cheguei através de um recrutador indicado, de uma consultoria de recrutamento e seleção, que cuidou de encontrar as vagas.

O processo incluiu triagem e teste online de algoritmos no estilo LeetCode. No fim, eu tinha três opções na mesa — entre elas a OUTsurance e a RetailInMotion — e precisei escolher.

Saí da Talabat em março de 2023 e mudei para Dublin em 23 de abril de 2023.

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Linha do tempo

QuandoO quê
26/01/2021Primeira mensagem da recrutadora no LinkedIn — sem resposta
04/03/2021Follow-up; respondo e envio o currículo
17/03/2021Primeira call com a Talabat
Mar–Abr/2021Seis etapas: screening, RH, live coding, system design, VP de Engenharia e alocação
21/04/2021Carta de oferta, válida por três dias úteis
Abr–Mai/2021Desligamento dos dois contratos paralelos
30/05/2021Primeiro dia na Talabat — remoto, do Brasil, acordando às 4h
Mai–Dez/2021Squad Grocery Fulfillment
14/06/2021Início do contrato CLT paralelo com filial brasileira de empresa americana — encerrado pela mudança, em novembro
26/11/2021Voo de Guarulhos para Dubai, pago pela empresa
27/11/2021Pouso em Dubai às 19h — e final da Libertadores num bar, à noite
28/11/2021Primeiro dia no escritório, um domingo
Dez/2021Covid e quarentena entre o Natal e o Ano-Novo, no hotel
01/01/2022Os Emirados mudam a semana útil para segunda a sexta
Jan/2022Troca para a squad Shopping Experience; mudança para o apartamento em JLT
Fev/2023Viagem de férias a Manchester, Londres e Dublin
Fev–Mar/2023Processo seletivo na Irlanda, conduzido de Dubai
Mar/2023Saída da Talabat — um ano e onze meses
23/04/2023Mudança para Dublin

O que ficou desses dois anos

Dubai me deu a experiência técnica mais dura da carreira e o ambiente mais internacional em que eu já trabalhei. Um time onde ninguém compartilha a sua língua materna te obriga a comunicar de um jeito que nenhum curso ensina — e eu saí de lá escrevendo muito melhor do que entrei.

Também me deu a resposta para uma pergunta que eu não sabia que estava fazendo. O plano original, lá no capítulo do Porto, era usar Portugal como porta de entrada para a Europa. Dubai foi um desvio de quase dois anos — extraordinariamente bem pago, extraordinariamente formativo — e ainda assim um desvio. Quando eu passei uma semana de férias em Dublin, em fevereiro de 2023, a resposta veio sozinha.

No próximo e último post da série: entrevista e contrato feitos inteiramente por Zoom, de Dubai. Cheguei em Dublin num domingo e comecei a trabalhar na segunda.

Referências

  1. Talabat. About us. talabat.com
  2. Delivery Hero. Our brands. deliveryhero.com
  3. U.AE — Portal oficial do Governo dos Emirados Árabes Unidos. Working hours and leaves. u.ae

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