Trabalhando pelo mundo #2 — Dubai: seis meses remoto do Brasil antes de pisar no deserto
Uma mensagem no LinkedIn que ficou cinco semanas sem resposta virou dois anos na Talabat, do grupo Delivery Hero. Visto de trabalho nos Emirados, meio ano em remoto acordando às 3h da manhã, 47 dias em hotel, e uma semana de trabalho que mudou de dia no meio do caminho.
A mensagem chegou em 26 de janeiro de 2021 e eu não respondi. Cinco semanas depois, a recrutadora insistiu — e essa insistência acabou definindo os dois anos seguintes da minha vida, mais tudo o que veio depois.
Este é o segundo post da série sobre os lugares onde trabalhei mudando de país. No primeiro capítulo eu contei sobre o Porto, a mudança que nunca aconteceu. Aqui a mudança aconteceu de verdade — só que com um intervalo curioso no meio: seis meses trabalhando para Dubai sem sair do Brasil.
De onde eu vinha
Eu tinha acabado de sair do Banco BS2, onde trabalhei desde 2019 via K2 Partnering, e estava acumulando dois contratos ao mesmo tempo, ambos remotos e ambos como Senior Software Engineer: a Farfetch, full-time, via a consultoria portuguesa Multivision, em recibos verdes, com a mudança para o Porto sendo planejada; e a Grace Kennedy Financial Group — o maior grupo financeiro da Jamaica e do Caribe —, part-time, via a agência de recrutamento The Bridge Social.
O capítulo anterior explica a conta em detalhe, mas o resumo é este: os dois rendimentos somados ainda ficavam abaixo do que Dubai oferecia por uma vaga um degrau abaixo na escada de carreira — a carta de oferta trazia Software Engineer II, grade IC2.
O fato de eu ainda não ter me mudado para Portugal foi o que tornou tudo possível. Não havia contrato de aluguel, mudança despachada nem vida montada para desfazer.
O processo seletivo
Como nos outros dois países da série, começou no LinkedIn.
Em 26 de janeiro de 2021, uma recrutadora da Talabat — plataforma de delivery do grupo alemão Delivery Hero, sediada em Dubai — me mandou uma mensagem. A abordagem trazia números de escala que hoje eu reconheço como o padrão do setor: milhões de usuários diários, centenas de milhares de pedidos por dia, milhares de funcionários e dezenas de nacionalidades. E a expressão que fazia o trabalho pesado da mensagem: salário isento de impostos.
Eu não respondi.
Não foi estratégia nem desdém. Eu tinha começado na Farfetch havia pouco mais de um mês, gostava do time, e a mudança para o Porto estava sendo planejada. Deixei para depois. O "depois" durou cinco semanas.
Em 4 de março ela mandou um follow-up dizendo que não tinha tido retorno. Dessa vez eu respondi em treze minutos, já com o currículo anexado. Ainda esperei mais uma semana, cobrei, e a call ficou marcada para 17 de março.
Isso me assusta um pouco até hoje: a decisão que definiu os anos seguintes chegou como uma notificação que eu não achei importante o suficiente para abrir. Oportunidade não chega anunciada como oportunidade — chega igualzinha ao resto do ruído.
Seis conversas até a oferta
Aqui a diferença em relação ao Porto é gritante. Na Farfetch foram duas entrevistas e nenhum teste técnico. Na Talabat foram seis etapas, com avaliação técnica de verdade.
| # | Etapa | Com quem |
|---|---|---|
| 1 | Screening | A recrutadora que me abordou |
| 2 | Entrevista de RH | Outra pessoa do time de recrutamento |
| 3 | Live coding | Dois engenheiros sêniores |
| 4 | System design | Outros dois engenheiros sêniores |
| 5 | Entrevista final | VP de Engenharia — mistura de tudo |
| 6 | Conversa de alocação | O engineering manager da squad, já com a decisão tomada |
Repare na ordem da última etapa: eu só conversei com quem seria meu gestor depois de aprovado, quando já tinham decidido para qual squad eu iria. Não foi uma entrevista — foi uma apresentação.
Contratação, visto e burocracia
Aqui a diferença em relação ao capítulo anterior é enorme. No Porto eu seria prestador de serviço por recibos verdes, com toda a responsabilidade fiscal nas minhas costas. Em Dubai eu fui empregado, com contrato regido pela lei trabalhista dos Emirados.
O que vinha no pacote
Eu não vou publicar os valores da minha proposta — mas vale registrar o raciocínio, porque ele é mais útil que o número. Ao comparar uma oferta dos Emirados com uma europeia, três coisas mudam a conta inteira: não há imposto de renda sobre salário, o que aproxima bruto e líquido; não há previdência pública acumulando em seu nome, então a aposentadoria é integralmente responsabilidade sua; e o custo de vida em Dubai é alto, especialmente moradia, o que devolve boa parte da vantagem. O que sobra de fato no fim do mês é uma conta de três variáveis, não de uma.
O visto — e a profissão que eu nunca exerci
Todo o processo foi conduzido pela empresa, com a papelada chegando por e-mail. E foi aqui que apareceu a consequência mais inesperada de um detalhe que já tinha aparecido no capítulo do Porto: eu não tenho diploma de curso superior.
Sem diploma, o visto emitido foi o de categoria não qualificada. Perante o governo dos Emirados, eu fiquei registrado como Filing Clerk — arquivista. Meu cargo na empresa, minhas responsabilidades e os valores acordados permaneceram exatamente os mesmos; a divergência existia só no papel do Ministério.
Exames médicos e direitos trabalhistas
O trâmite de residência inclui uma bateria obrigatória feita em órgãos do governo local, com agendamento pela empresa:
A empresa agendava tudo, mas o deslocamento até os postos era por minha conta — com exceção da palestra. É um detalhe pequeno que ilustra bem o padrão de um pacote de relocação: quase tudo coberto, e uma faixa de despesas miúdas que ninguém menciona e que fica com você.
Seis meses trabalhando para Dubai sem sair do Brasil
Eu comecei em 30 de maio de 2021 e passei quase seis meses em remoto, do Brasil. Na prática, foi uma repetição do arranjo que eu já vinha fazendo com Portugal — trabalhar para um país onde eu ainda não morava — mas com uma diferença essencial: dessa vez a mudança realmente aconteceu.
Acordar às 3h da manhã
O fuso é o que muda tudo. Portugal está três ou quatro horas à frente do Brasil; Dubai está sete. Não existe manhã em comum.
A daily era às 11h de Dubai, o que me colocava de pé por volta das 4h da manhã. Depois o horário foi antecipado para 10h de Dubai — porque parte do time estava em remoto na Europa e o horário de verão da Ucrânia e da Croácia empurrou a cerimônia para trás. Para mim, isso significou passar a acordar às 3h.
Havia ainda dois atritos que ninguém antecipa. O primeiro era a semana de trabalho diferente: nessa época os Emirados trabalhavam de domingo a quinta, então meu domingo era dia útil e minha sexta era dia morto. O segundo era mais prosaico: queda de energia e de internet. Algumas vezes eu simplesmente não consegui trabalhar — e quando a sua casa é o escritório de uma empresa a onze mil quilômetros, não existe “vou usar a máquina do escritório”.
O equipamento
Comecei tudo com o meu próprio notebook, com Windows. A empresa chegou a me enviar um MacBook, despachado de Dubai para o Brasil, mas eu usei pouquíssimas vezes — preferi seguir na minha máquina, no ambiente que eu já dominava.
Como eu recebia — a parte mais complicada
Essa foi a engenharia financeira menos óbvia de toda a mudança.
| Fase | Como o dinheiro chegava |
|---|---|
| Primeiros ~2 meses | Pagamento em dólar na conta global da minha empresa, oferecida pelo meu banco brasileiro. Bastou informar IBAN e BIC/SWIFT. |
| Restante do remoto | Migrei para minha conta em Portugal, aberta ainda na época da Farfetch, e de lá remetia ao Brasil — por transferência direta ou comprando criptomoeda em corretora. |
| Primeiro mês em Dubai | Em dinheiro vivo, retirado numa casa de câmbio local. |
| Depois disso | Conta bancária local, aberta numa agência em Dubai. |
Isso não tem nenhuma relação com "abrir uma offshore". É uma conta contratada num banco brasileiro, sujeita às regras do Banco Central, informada à Receita Federal como qualquer outra e declarada normalmente. A estrutura de correspondentes é da instituição, não sua — você só vê um IBAN e um SWIFT.
Receber o primeiro salário de Dubai em dinheiro, no balcão de uma casa de câmbio, é uma daquelas cenas que resumem uma cidade inteira. Eu vinha de meses de transferência internacional entre três países e quatro instituições, e o primeiro pagamento presencial foi o mais analógico possível: fila, guichê, cédulas contadas na sua frente. Ainda não havia conta local, e a economia dos Emirados simplesmente tem essa camada em espécie funcionando com naturalidade.
A mudança: um voo, uma final e 47 dias de hotel
O voo que eu tentei adiar
A data estava marcada: 26 de novembro de 2021, voo semanal de sexta-feira, de Guarulhos para Dubai, pago pela empresa. Eu pedi uma semana de adiamento. Negaram — e com uma certa razão, já que eu vinha empurrando havia seis meses.
O motivo do pedido: no dia 27 de novembro era a final da Libertadores, Palmeiras contra Flamengo, no Uruguai. Eu tinha tentado ir, sem sucesso.
Aterrissei em Dubai por volta das 19h do dia 27. Corri para o hotel, larguei as malas e fui assistir à final num bar, com um amigo que eu tinha conhecido pelos grupos de WhatsApp de brasileiros nos Emirados — alguém que, até aquele dia, eu nunca tinha visto pessoalmente.
Menos de três horas depois de pousar num país onde eu nunca tinha estado, eu estava num bar assistindo meu time ganhar a Libertadores, ao lado de alguém que eu só conhecia de grupo de WhatsApp.
E tem um detalhe que melhora a história: o cara era corintiano. Ou seja, eu comemorei o título do Palmeiras sentado ao lado do maior rival — alguém que, naquela noite, torcia com todas as forças pelo Flamengo. A doze mil quilômetros de casa, num bar em Dubai, a rivalidade continuava intacta e o encontro aconteceu mesmo assim.
Os grupos de brasileiros no exterior são muito subestimados: eles resolvem, em uma tarde, o problema que costuma levar meses — ter uma pessoa para chamar. E resolvem sem filtro de time, de cidade ou de qualquer outra coisa: lá fora, o que aproxima é a origem comum, e o resto vira piada de bar.
Aquilo era sábado. No domingo eu já estava no escritório: a semana útil nos Emirados ia de domingo a quinta.
Os empregos que a mudança encerrou
Durante o período em remoto do Brasil, eu não estava só na Talabat. Em 14 de junho de 2021 eu somei um contrato CLT com a filial brasileira de uma empresa americana — e havia ainda uma terceira frente, também parcial, num projeto de open banking. Foi a fase em que acumulei três vínculos ao mesmo tempo.
O contrato americano tem um detalhe que vale contar, porque é a melhor lição prática desta série sobre trabalho remoto internacional. O salário era acima da média de sênior no Brasil e muito abaixo da média de sênior nos Estados Unidos — o clássico salário LATAM: a empresa paga acima do mercado local e bem abaixo do mercado dela. E isso não era acidente, estava escrito no contrato. Exigia-se que eu estivesse na América Latina, por dois motivos declarados: fuso horário e custo de vida.
Sendo CLT, eu precisava estar legalmente residindo no Brasil. Manter o vínculo morando em Dubai era impraticável: além do fuso, a empresa poderia me convocar ao escritório de São Paulo a qualquer momento. Vale registrar também o que aquele contrato não oferecia: nenhuma previsão de mudança para os Estados Unidos, nenhum patrocínio de visto. Não era caminho para lugar nenhum — era um emprego remoto com teto geográfico embutido.
Então o embarque de novembro resolveu a questão sozinho. A mudança encerrou os contratos que dependiam de eu estar no Brasil, e eu fiquei só com a Talabat.
Primeiro mês: presencial por necessidade
Meu gestor pediu que eu fosse ao escritório no primeiro mês. A justificativa tinha dois lados, e os dois faziam sentido: eu precisava me ambientar depois de meio ano conhecendo o time só por vídeo, e trabalhar de um quarto de hotel por semanas não é exatamente sustentável.
47 dias em dois hotéis
O pacote de contratação cobria cerca de 20 a 30 dias de hotel, perto do escritório em Business Bay. Terminado o prazo, eu ainda não tinha encontrado apartamento — pedi extensão e fui transferido para um segundo hotel, mais caro, com desconto negociado. No total foram 47 dias hospedado, entre dois hotéis, ambos em Business Bay.
Depois disso aluguei um apartamento em JLT — Jumeirah Lake Towers. Fazendo as contas, o valor do aluguel e o que me cobravam de diária ficaram próximos: descontado o período pago pela empresa, eu não saí perdendo com a demora.
Ainda no segundo hotel, depois da confraternização de fim de ano da minha tribo, eu peguei covid. Passei o período entre o Natal e o Ano-Novo em quarentena, sozinho, num quarto de hotel, num país onde eu tinha chegado havia um mês.
A virada do ano eu assisti da janela — de frente para o Burj Khalifa, vendo a queima de fogos mais famosa do mundo do lado de fora do vidro. É uma imagem que eu não trocaria por nada, e que ao mesmo tempo resume bem o que ninguém conta sobre mudar de país: os melhores cenários costumam chegar em momentos que você não escolheu.
A empresa, as tribos e os times
A Talabat nasceu no Kuwait em 2004 como plataforma de pedidos de comida online e, desde 2016, é subsidiária da alemã Delivery Hero. Opera em vários países do Oriente Médio — Kuwait, Bahrein, Emirados, Omã, Catar, Jordânia, Egito e Iraque.
Dois times, duas metades da jornada de compra
Minha passagem se dividiu quase ao meio, em dois times com escopos bem distintos.
| Período | Squad | Escopo |
|---|---|---|
| Mai–Dez/2021 | Grocery Fulfillment | Do checkout até o entregador chegar à loja |
| Jan/2022–Mar/2023 | Shopping Experience ex-FAST — Finding and Shopping Team | Da escolha da loja até o carrinho |
Grocery Fulfillment cuidava do que acontece depois que o cliente finaliza a compra: garantir que o pedido fosse separado corretamente pela equipe da loja, até o momento em que o entregador chega para retirar. É um domínio muito menos glamouroso que “busca” e muito mais brutal — porque o mundo físico não colabora. O produto acabou na prateleira. O separador não achou o item. O cliente quer substituir por outro.
Shopping Experience — antes chamado FAST, de Finding and Shopping Team — atuava na metade anterior: depois que o usuário escolhe a loja e antes de ele ir para o carrinho. Busca, ofertas, descontos, produtos em destaque, navegação personalizada. O carrinho e o checkout eram de outro time, e a seleção de loja de um terceiro.
O mapa-múndi dentro da squad
Essa foi a maior diferença cultural em relação a tudo que eu tinha vivido. Nas duas squads, eu nunca dividi time com alguém do mesmo país que eu — com uma única exceção, na segunda.
| Engineering Manager | Engenheiros | |
|---|---|---|
| Grocery Fulfillment | Nigéria | Egito, Polônia, Ucrânia, Jordânia |
| Shopping Experience | Argentina, criado na Espanha | Índia, Paquistão, Brasil, Rússia |
Meus dois gestores foram um nigeriano — hoje morando em Portugal — e um argentino criado na Espanha, hoje em Varsóvia. O detalhe de onde os dois estão atualmente diz bastante sobre Dubai: é uma cidade de passagem, inclusive para quem lidera.
O projeto e as tecnologias
O pano de fundo dos dois anos foi um só: migração de arquitetura monolítica para microsserviços. Todo o resto acontecia em cima disso.
O que eu construí
No Grocery Fulfillment, três frentes que eu gosto de contar porque são problemas que só existem quando software encosta no mundo real:
O caso da substituição de item é o meu favorito para explicar o que é um domínio difícil: um pedido já pago, um produto que acabou, três atores diferentes com poder de alterar o mesmo carrinho ao mesmo tempo, e um entregador a caminho. Não é um problema de código — é um problema de modelagem de domínio, e é exatamente onde DDD deixa de ser sigla e vira ferramenta.
No Shopping Experience, o foco virou busca, ofertas e experiência de navegação, mais a construção da camada de BFF.
A rotina
Se no Porto a palavra era calma, aqui a palavra é elevada. Empresa em hipercrescimento, escala grande, migração arquitetural em curso e um domínio que não perdoa erro.
A semana que mudou de dia
Historicamente, a semana útil nos Emirados ia de domingo a quinta-feira, com sexta e sábado como fim de semana, porque a sexta é o dia da oração congregacional no Islã.
Em 1º de janeiro de 2022, os Emirados mudaram para uma semana de segunda a sexta, com a sexta encurtada — tornando-se o primeiro país do Golfo a alinhar seu calendário ao ocidental. Eu vivi exatamente essa transição, que coincidiu quase perfeitamente com a minha troca de squad.
| Período | Semana útil | Fim de semana |
|---|---|---|
| Até dez/2021 | Domingo a quinta | Sexta e sábado |
| A partir de jan/2022 | Segunda a sexta (sexta reduzida) | Sábado e domingo |
A mudança foi boa por duas razões práticas: alinhou o calendário com o resto do mundo e facilitou muito planejar viagens — quando seu fim de semana é sexta e sábado, quase todo voo e todo evento internacional cai fora dele.
E a sexta-feira nova ficou com uma personalidade própria. É comum que colegas muçulmanos parem no horário do almoço para a oração, e parte deles não retorna ao expediente. Isso transformava o dia num dia sem reuniões: dava para usar para foco, encerrar mais cedo por volta das 16h, ou simplesmente trabalhar normal. Sexta em Dubai passou a ter, ao mesmo tempo, cara de dia útil e clima de fim de semana.
A semana desenhada por dia
Na segunda squad, o calendário tinha um desenho que eu passei a admirar bastante — sprints de duas semanas, com as cerimônias concentradas nas pontas:
| Dia | O que acontecia |
|---|---|
| Segunda | Reuniões de planejamento |
| Terça (manhã) | Bugs sem prioridade e tickets de dívida técnica |
| Terça (tarde) | Chapter — encontro por especialidade |
| Quinta | Dia de escritório |
| Última sexta do sprint | Retrospectiva |
O efeito colateral desse desenho é ótimo: como o sprint durava duas semanas e as cerimônias caíam numa sexta e na segunda seguinte, sobrava uma semana inteira sem reunião de processo. Bloco de foco de verdade, não aquele “no-meeting Wednesday” que dura até alguém marcar algo.
As terças eram reservadas para dívida técnica e para o chapter — a reunião de todos que trabalhavam na mesma especialidade, atravessando as squads, para propor soluções de alcance transversal. Havia chapter de backend (o meu), de produto, de frontend, de mobile nativo e de mobile em Flutter. O pessoal de infraestrutura, DevOps e plataforma participava de todos.
Escritório, verão e a rotina social
O presencial era leve: em geral um dia por semana, normalmente às quintas. E no verão a régua caía drasticamente — algo como uma ida a cada dois meses, ou seja, cerca de duas vezes ao longo dos quatro meses de calor.
Faz todo sentido para quem já passou um verão no Golfo. Não é uma questão de conforto: com temperaturas que ultrapassam os 45 °C, sair de casa no meio do dia é uma decisão logística.
O verão também esvaziava a cidade. Muita gente voltava ao país de origem por semanas. Eu escolhi outra coisa: como tinha acabado de sair do Brasil, não tinha o menor interesse em voltar tão cedo, nem para visitar — usei o período para viajar pela Europa.
E havia um ritual que eu levo comigo: a cada um ou dois meses, um happy hour pago pela empresa. Algumas vezes o time chegou a fazer a retrospectiva do sprint num bar. A empresa cobria comida e narguilé; bebida alcoólica ficava por conta de cada um.
Por que eu saí
Não foi uma decisão tomada num dia. Foram quatro coisas se acumulando.
1. O projeto deixou de me interessar
A frente em que eu estava não era o tipo de trabalho que eu queria fazer nos anos seguintes. Isso, sozinho, não faz ninguém mudar de país — mas remove a razão que faz você tolerar todo o resto.
2. Plantão não remunerado
Essa foi a fonte de desgaste mais concreta.
O telefone tocava toda terça-feira, às 6h da manhã — não por incidente real, mas porque a execução de testes de carga disparava o sistema de alertas, que ligava automaticamente para quem estivesse de plantão. Um alarme previsível, recorrente e inteiramente evitável, transformado em despertador semanal.
Somava-se a isso o trabalho real durante o plantão, causado com frequência por erros originados em outras squads, outros times e até outros países. Você acordava de madrugada para resolver algo que não era do seu domínio, sem remuneração adicional pelo regime de sobreaviso.
3. O retorno ao presencial integral, avisado com dois dias
A empresa decidiu voltar ao escritório cinco dias por semana. A comunicação veio por e-mail numa segunda-feira, informando que a partir da quarta o presencial seria obrigatório.
Depois de quase dois anos de modelo híbrido — com verões de uma ida a cada dois meses —, a mudança em si já era grande. O prazo de dois dias para reorganizar a vida foi o que transformou uma decisão administrativa em sinal sobre a empresa.
4. O escritório ficou mais longe e mais caro
Em paralelo, a empresa mudou de prédio: saiu de Business Bay para o City Walk. O novo endereço ficava longe demais da estação de metrô para se fazer o trajeto a pé, o que empurrava a locomoção para o táxi — e encareceu o deslocamento diário.
Isoladamente, é um detalhe logístico. Combinado com a exigência de estar lá todos os dias, virou um custo diário concreto, em dinheiro e em tempo, imposto sem aviso.
Em fevereiro de 2023 eu vim à Europa a passeio. Tinha combinado a viagem com uma amiga que morava em Malta: Manchester, onde vive um dos meus melhores amigos; Londres, onde eu não conhecia ninguém na época; e Dublin, onde eu tinha vários amigos, incluindo dois dos mais próximos.
Eu vim como turista. Voltei tendo decidido morar aqui.
O processo, conduzido de Dubai
Do primeiro contato até eu escolher para onde ir levou cerca de dois meses. Dessa vez não foi o LinkedIn: cheguei através de um recrutador indicado, de uma consultoria de recrutamento e seleção, que cuidou de encontrar as vagas.
O processo incluiu triagem e teste online de algoritmos no estilo LeetCode. No fim, eu tinha três opções na mesa — entre elas a OUTsurance e a RetailInMotion — e precisei escolher.
Saí da Talabat em março de 2023 e mudei para Dublin em 23 de abril de 2023.
Linha do tempo
| Quando | O quê |
|---|---|
| 26/01/2021 | Primeira mensagem da recrutadora no LinkedIn — sem resposta |
| 04/03/2021 | Follow-up; respondo e envio o currículo |
| 17/03/2021 | Primeira call com a Talabat |
| Mar–Abr/2021 | Seis etapas: screening, RH, live coding, system design, VP de Engenharia e alocação |
| 21/04/2021 | Carta de oferta, válida por três dias úteis |
| Abr–Mai/2021 | Desligamento dos dois contratos paralelos |
| 30/05/2021 | Primeiro dia na Talabat — remoto, do Brasil, acordando às 4h |
| Mai–Dez/2021 | Squad Grocery Fulfillment |
| 14/06/2021 | Início do contrato CLT paralelo com filial brasileira de empresa americana — encerrado pela mudança, em novembro |
| 26/11/2021 | Voo de Guarulhos para Dubai, pago pela empresa |
| 27/11/2021 | Pouso em Dubai às 19h — e final da Libertadores num bar, à noite |
| 28/11/2021 | Primeiro dia no escritório, um domingo |
| Dez/2021 | Covid e quarentena entre o Natal e o Ano-Novo, no hotel |
| 01/01/2022 | Os Emirados mudam a semana útil para segunda a sexta |
| Jan/2022 | Troca para a squad Shopping Experience; mudança para o apartamento em JLT |
| Fev/2023 | Viagem de férias a Manchester, Londres e Dublin |
| Fev–Mar/2023 | Processo seletivo na Irlanda, conduzido de Dubai |
| Mar/2023 | Saída da Talabat — um ano e onze meses |
| 23/04/2023 | Mudança para Dublin |
O que ficou desses dois anos
Dubai me deu a experiência técnica mais dura da carreira e o ambiente mais internacional em que eu já trabalhei. Um time onde ninguém compartilha a sua língua materna te obriga a comunicar de um jeito que nenhum curso ensina — e eu saí de lá escrevendo muito melhor do que entrei.
Também me deu a resposta para uma pergunta que eu não sabia que estava fazendo. O plano original, lá no capítulo do Porto, era usar Portugal como porta de entrada para a Europa. Dubai foi um desvio de quase dois anos — extraordinariamente bem pago, extraordinariamente formativo — e ainda assim um desvio. Quando eu passei uma semana de férias em Dublin, em fevereiro de 2023, a resposta veio sozinha.
No próximo e último post da série: entrevista e contrato feitos inteiramente por Zoom, de Dubai. Cheguei em Dublin num domingo e comecei a trabalhar na segunda.
Referências
- Talabat. About us. talabat.com
- Delivery Hero. Our brands. deliveryhero.com
- U.AE — Portal oficial do Governo dos Emirados Árabes Unidos. Working hours and leaves. u.ae
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