Nove aeroportos em quinze dias: a primeira viagem depois de me mudar para Dubai
Em abril de 2022, uma semana em Malta virou quinze dias entre Mallorca, Porto, Santiago, Madri, Bologna, Malta e Cagliari. O roteiro real, os custos reais e o que eu faria diferente.
Em abril de 2022 eu morava em Dubai havia menos de seis meses. Uma amiga me convidou para passar a semana do Eid al-Fitr na casa dela em Malta. Comprei a passagem, e antes de embarcar a viagem já tinha dobrado de tamanho: quinze dias, nove voos, nove aeroportos e três carros alugados no balcão. Este é o roteiro real — reconstruído quatro anos depois a partir da fatura da passagem e do histórico de localização do meu celular.
O contexto: seis meses de Dubai
Eu tinha me mudado para Dubai no fim de 2021 para trabalhar na Talabat. Morava em JLT, trabalhava em Business Bay, e ainda estava naquela fase em que tudo é novo demais para você perceber que já virou rotina.
Era minha terceira viagem internacional na vida. A primeira tinha sido a Copa de 2018, em Moscou. A segunda foi a mudança em si — o voo de ida, sem volta. Esta seria a primeira vez que eu sairia do país por lazer morando fora.
Uma amiga tinha conhecido o então namorado dela em Malta, durante um intercâmbio de um mês em 2019. Ele era italiano, morava na ilha e trabalhava com acomodação de estudantes. Eles acabaram morando juntos lá, e o convite para eu passar uma semana na casa deles veio quase de brincadeira. Aceitei na hora.
O casal não durou — hoje ela é casada com outra pessoa. Mas aquela semana em Malta só existiu por causa de um intercâmbio de trinta dias que alguém fez três anos antes. Viagem é isso.
O feriado do Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadã, caía no começo de maio naquele ano. Somando dois dias de feriado com quatro de fim de semana, três dias de férias me dariam uma semana inteira. Era o plano original.
Como uma semana virou duas
Conversando com minha ex, que estaria em Portugal até 30 de abril, achei que seria uma boa ideia visitá-la antes de seguir para Malta. Foi o suficiente para o plano inteiro se reorganizar.
Três dias de férias viraram oito. Uma semana virou quinze dias. E a passagem, que seria Dubai–Malta–Dubai, virou um bilhete costurado com oito trechos.
| Plano original | O que aconteceu |
|---|---|
| 1 semana | 15 dias e 17 noites |
| 3 dias de férias | 8 dias de férias |
| 1 destino | 8 cidades em 5 países |
| 2 voos | 9 voos, 9 aeroportos |
| 0 carros | 3 aluguéis |
A passagem: o que realmente custa um bilhete costurado
Comprei tudo pela Kiwi.com, em dirhams. A fatura tem 27 linhas. Vale a pena olhar com atenção, porque ela conta uma história que o preço anunciado não conta.
| Trecho | Data | AED | ≈ EUR |
|---|---|---|---|
| Dubai → Viena | 22/04 | 803,97 | 202,51 |
| Viena → Palma de Mallorca | 23/04 | 108,91 | 27,43 |
| Palma → Porto | 23/04 | 50,81 | 12,80 |
| Porto → Bologna | 30/04 | 118,09 | 29,75 |
| Bologna → Malta | 02/05 | 62,89 | 15,84 |
| Malta → Viena | 07/05 | 215,60 | 54,31 |
| Viena → Bucareste | 07/05 | 111,33 | 28,04 |
| Bucareste → Dubai | 07/05 | 1.116,38 | 281,20 |
| Subtotal dos voos | 2.587,98 | 651,88 |
Oito voos na fatura por 652 euros parece bom. E é. Só que os voos foram menos da metade da conta.
| Extra | AED | ≈ EUR |
|---|---|---|
| Garantia Kiwi.com | 647,00 | 162,97 |
| Assentos marcados (7 trechos) | 624,47 | 157,30 |
| Bagagem de mão 7 kg (5 trechos) | 493,02 | 124,19 |
| Seguro Plus | 323,95 | 81,60 |
| Service Package | 40,29 | 10,15 |
| Subtotal dos extras | 2.128,73 | 536,20 |
| TOTAL | 4.716,71 | 1.188,09 |
Os AED 624 de assento marcado têm uma explicação simples: era minha primeira viagem desse tipo, e eu queria ir na janela em todos os trechos. Hoje não faço mais isso. Dependendo da viagem, prefiro corredor — facilita levantar para ir ao banheiro ou esticar as pernas. Em voo longo e de dia, ainda prefiro janela.
Em low cost, deixo a companhia escolher (assento aleatório) e torço por corredor: são voos rápidos, sem custo de assento e geralmente à noite. Em voo longo, companhia cara ou destino essencialmente novo, geralmente pago pela janela — o que, ultimamente, é bem raro.
Isso não é crítica à Kiwi — é o modelo. Quando você costura nove voos de companhias diferentes que não conversam entre si, alguém precisa assumir o risco de você perder uma conexão. Esse alguém cobra por isso. O erro é achar que o preço do voo é o preço da viagem.
Câmbio usado: o dirham é atrelado ao dólar (AED 3,6725 = US$ 1), e o euro estava em torno de US$ 1,08 em abril de 2022. Isso dá aproximadamente AED 3,97 por euro, que é a taxa usada em todas as conversões deste post. Não use a taxa de hoje para converter valores de 2022 — a diferença passa de 10%.
Dia 1 e 2 — Dubai, Viena e quatro horas em Mallorca
Saí de casa em JLT às 19h29 do dia 22 de abril, uma sexta-feira. Decolagem de Dubai às 22h36. Cheguei em Viena às 03h22, com três horas de conexão, e às 09h40 estava em Palma de Mallorca.
A conexão em Palma era de seis horas e meia. Peguei um carro na Sixt no balcão do aeroporto e saí.
Eu vinha de Dubai. Em abril, Dubai já passa dos 35 graus. Eu não tinha uma única peça de roupa de frio na mala, e ia passar duas semanas entre Porto, Madri e Bologna em abril.
Não era só a mala: eu não tinha levado roupa de frio para Dubai. O que eu tinha por lá era uma jaqueta que ganhei da Talabat, uma jaqueta do Palmeiras — nenhuma das duas me pareceu adequada para essa viagem — e uma jaqueta grossa de inverno, que nem cogitei pegar: em Dubai já era quase verão, e eu não fazia ideia de como estava a Europa naquela época do ano.
Resolvi isso em 25 minutos, num centro comercial em Portals Nous, a caminho do almoço. Duas jaquetas, compradas às pressas numa escala de avião. Foram as únicas roupas de frio que eu tive na viagem inteira — e foram suficientes.
O plano era voltar ao Brasil ainda no primeiro ano de Dubai e trazer o resto das roupas nessa ida. Não voltei. Minha primeira ida ao Brasil depois da mudança só aconteceu em 2024, quando eu já morava em Dublin — e foi nessa ocasião que o resto das minhas roupas de frio finalmente saiu de São Paulo, direto para Dublin.
Passei pela Marina Port de Mallorca, rodei um pouco pela costa e almocei no Mesón Ca’n Pedro, em Génova, das 12h57 às 13h47. É uma casa enorme, tradicional, sempre cheia — daquelas em que o garçom trabalha em silêncio e nada dá errado. Devolvi o carro e às 14h11 já estava de volta ao aeroporto.
Decolei de Palma às 16h11 e pousei no Porto às 17h21.
Dias 2 a 9 — Porto como base
Aluguei um carro na Sixt do aeroporto do Porto, dessa vez com reserva antecipada, e fui direto para o AirBnB na Rua Gonçalo Sampaio, de frente para o shopping. Uma semana, de 23 a 30 de abril, por R$ 3.052,24.
Cheguei ao apartamento às 19h07 e às 22h21 já estava num bar de narguilé, o Marrakech, a treze minutos de carro. Voltei quase às 2h. Repeti nas duas noites seguintes — 23, 24 e 25 de abril, sempre saindo por volta das 22h e voltando por volta da 1h.
Santiago de Compostela — 25 de abril
Saí do Porto às 13h08 e voltei às 18h10. 431,7 km em cinco horas, ida e volta, sem parar em lugar nenhum.
Foi exatamente isso: dirigir até Santiago, dar uma volta de carro pela cidade e voltar. Não desci, não visitei a catedral, não almocei lá. Foi um passeio de estrada com um destino no meio.
Vila Nova de Gaia — 26 de abril
Atravessei o Douro no fim da tarde do dia 26 para encontrar minha ex. Fiquei em Gaia das 17h58 às 20h22 e depois no Cais de Gaia até as 23h23. É a margem de onde se vê o Porto inteiro, com as caves de vinho do Porto atrás e a Ponte Luís I à esquerda. A vista boa da cidade não está na cidade.
Dias 7 a 9 — Madri, ida e volta de carro
No dia 28 peguei a estrada. Saí do Porto às 13h30, parei em Aveiro, parei de novo perto da Guarda e cruzei a fronteira. Cheguei em Madri às 20h38 — sete horas de estrada.
Fiquei na casa de uma amiga em comum, em Chamartín. Quarenta minutos depois de chegar, já estávamos na rua.
Acordei às 14h. O dia 29 foi o único dia de turismo puro da viagem inteira: Palácio Real das 14h49 às 15h57, depois a pé até a Chocolatería San Ginés, passando pela Plaza Mayor no caminho — a praça onde foi rodado Vantage Point.
Terminei o dia no Marrakech Lounge, na Calle de Ferraz, onde fiquei quatro horas e meia fumando narguilé. Nenhuma relação com o Marrakech do Porto além do nome. Das 22h29 às 03h29, balada na La Mamona, em Ponzano — a pista fica no subsolo.
Saí da La Mamona às 03h29. Passei em casa, peguei as coisas e às 04h23 estava na estrada para o Porto. Parei uma vez, em Tordesillas, por dezoito minutos. Cheguei ao Porto às 10h05.
Naquele mesmo dia eu ainda faria um teste de covid, devolveria o carro e pegaria um voo internacional às 21h19. Deu certo. Mas dirigir 550 km depois de uma noite sem dormir é o tipo de coisa que dá certo até o dia em que não dá.
Dia 9 — o dia mais cheio
O dia 30 de abril, sozinho, resume a viagem inteira:
| Hora | O quê |
|---|---|
| 03h29 | Saída do restaurante em Madri |
| 04h23 | Na estrada, sem ter dormido |
| 06h50 | Parada em Tordesillas |
| 10h05 | Chegada ao Porto — 553 km |
| 13h06 | Teste de covid-19 |
| 14h27 | Aeroporto, devolução do carro |
| 21h19 | Decolagem para Bologna |
| 01h07 | Pouso em Bologna |
Dias 10 e 11 — Bologna
Pousei em Bologna à 01h07 do dia 1º de maio. Táxi do aeroporto até o AirBnB, no centro. Larguei as malas e saí de novo: 6,1 km a pé entre 03h10 e 04h33, sozinho, pela cidade vazia.
Dormi até as 15h21.
No domingo à tarde, andei 6,4 km pelo centro por conta própria. Na segunda de manhã fiz um tour guiado a pé — Piazza Maggiore, as Due Torri, os pórticos — e à tarde o ônibus panorâmico de dois andares, um circuito de 8 km em pouco mais de uma hora.
Peguei o trem para o aeroporto às 17h47 da segunda-feira.
Dias 11 a 17 — Malta, finalmente
O voo saiu de Bologna às 20h04 — quatro horas e meia depois do horário do bilhete original, que eu tinha trocado por um voo com escala em Catania. Foram 35 minutos na Sicília e pouso em Malta às 23h32. À 00h13 eu estava na casa do casal.
Depois de dez dias correndo, a semana em Malta foi a única parte da viagem que teve ritmo de férias.
3 de maio — Blue Grotto
Dingli pela manhã, depois Blue Grotto das 13h59 às 15h16 — as grutas na costa sul, onde a luz refletida no fundo do mar deixa a água azul-elétrica. Caminhada de 1,9 km pela orla. À noite, Swieqi e depois Paceville até 00h10.
4 de maio — Popeye Village, Golden Bay e Valletta
Saí ao meio-dia para o norte. Popeye Village às 14h56 — o cenário original do filme de 1980 com Robin Williams, construído na Anchor Bay e nunca demolido. Fiquei só meia hora; é pequeno e se vê rápido.
Golden Bay das 15h36 às 17h18, a melhor praia de areia da ilha. À noite, Valletta das 21h10 às 22h40. A capital murada é Patrimônio da Humanidade inteira, e à noite fica praticamente vazia.
5 de maio — Mdina, Dingli Cliffs e o show brasileiro
Mdina, a cidade silenciosa, antiga capital medieval dentro das muralhas. Depois Dingli Cliffs das 14h15 às 15h53 — os penhascos mais altos de Malta, 250 metros acima do Mediterrâneo.
À noite, Il-Fortizza, em Sliema: um forte britânico do século XIX transformado em restaurante, debruçado sobre o mar. Fiquei quase três horas, das 19h58 às 22h45, com show de um grupo brasileiro. Encontrar música brasileira num forte vitoriano em Malta é o tipo de coisa que resume por que se viaja.
6 de maio — Nine Lives, jet ski e uma tarde sozinho
Almocei no Nine Lives, em St Paul’s Bay, das 12h39 às 14h01 — restaurante e beach club na areia, do tipo em que o prato demora e ninguém se importa.
De lá segui para a Mellieħa Bay, onde aluguei um jet ski com a Oh Yeah Malta, a operadora que fica na própria praia. Cerca de uma hora na água. Sair sozinho no meio do mar, com os penhascos do norte de um lado e Comino no horizonte do outro, foi o momento mais bonito da viagem.
Voltei para a areia e passei o resto da tarde no Blu Beach Club, ao lado, das 15h18 às 19h47, bebendo sozinho e olhando o mar. Depois de duas semanas de aeroporto, estrada e madrugada, foi a primeira vez na viagem inteira que eu não estava indo a lugar nenhum.
À noite, Paceville de novo, até as 03h04.
Ao reconstruir esse dia, as fotos e o GPS não batiam: as imagens do almoço apareciam duas horas depois da hora em que o histórico me colocava no restaurante. Levei um tempo para entender que o erro não estava no GPS.
O fuso do meu celular ainda estava configurado para Dubai. Seis meses depois de me mudar, três semanas antes dessa viagem, e o aparelho continuava marcando o horário do Golfo em cada foto que eu tirava na Europa. É a coisa mais literal que eu poderia ter descoberto sobre morar fora: o corpo já tinha mudado de continente, o relógio não.
7 de maio — o último dia
Dormi até quase 19h. Sliema no fim da tarde, e a última noite em Paceville — das 22h15 às 05h02.
A volta — e três horas de Sardenha
O bilhete original mandava voltar no dia 7, via Viena e Bucareste. Remarquei para o dia 8, e o roteiro novo passou por dois países que eu não conhecia.
Decolei de Malta às 11h34 e pousei em Cagliari às 13h06. Peguei mais um carro na Sixt, no balcão, e rodei 26,9 km pela capital da Sardenha em duas horas e quarenta. Devolvi às 16h47 e embarquei às 17h44 para Budapeste, onde passei duas horas e meia no aeroporto.
Decolagem às 22h30. Pouso em Dubai às 05h50 do dia 9 de maio. Em casa, em JLT, às 07h38.
Duas das melhores horas dessa viagem foram escalas: quatro horas em Palma e três em Cagliari, as duas resolvidas com um carro alugado no balcão. Nenhuma das duas estava no plano.
Se a escala passa de três horas e o aeroporto tem locadora, sair vale quase sempre a pena. Você não conhece a cidade — mas conhece o suficiente para saber se quer voltar.
À noite do dia 9, ainda no jet lag, apareci no happy hour no bar do hotel com o pessoal do trabalho. Voltei para casa às 21h24. Na manhã seguinte a rotina recomeçou.
Os números
| Item | Valor |
|---|---|
| Passagem aérea (8 trechos + extras) | AED 4.716,71 ≈ € 1.188 |
| AirBnB Porto (7 noites) | R$ 3.052,24 |
| AirBnB Bologna (2 noites) | não recuperado |
| Hospedagem em Malta (6 noites) | casa de amigos |
| Aluguéis de carro (Sixt, 3×) | não recuperado |
| Alimentação, passeios, combustível | não recuperado |
Distâncias percorridas: aproximadamente 14.400 km de avião em 9 voos, mais cerca de 1.900 km de carro entre Portugal e Espanha, mais os trechos curtos em Mallorca, Malta e Sardenha.
O que eu faria diferente
Conclusão
Essa viagem aconteceu porque alguém fez um intercâmbio de um mês em Malta em 2019, e porque uma conversa mudou um roteiro de uma semana em duas. Nada nela foi planejado com antecedência além da passagem e de sete noites no Porto.
Escrever sobre ela quatro anos depois me mostrou o quanto a memória reorganiza as coisas. Eu lembrava do tour guiado em Bologna no dia errado, da chegada em Madri uma hora depois do que foi, e tinha certeza de que voltei ao trabalho na manhã seguinte ao pouso — quando na verdade dormi o dia inteiro e só apareci num happy hour à noite. O celular lembrava melhor do que eu.
Se você acabou de se mudar para outro país e está com medo de gastar as primeiras férias viajando: vá. Os primeiros meses fora são justamente quando o mapa ainda parece grande. Foi a última vez que eu olhei para a Europa como um lugar distante.
Referências
- Kiwi.com s.r.o. Fatura 2022-1714XXXX, reserva 21119XXXX. Emitida em 28/03/2022. Documento pessoal.
- Google. Timeline (histórico de localização), 22/04/2022 a 10/05/2022. Exportação pessoal via Google Takeout.
- Banco Central dos Emirados Árabes Unidos. Paridade fixa AED/USD. centralbank.ae
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